Na margem sul da represa de Hartbeespoort encontra-se o sítio arqueológico de um dos assentamentos mais antigos de agricultores e criadores de animais da África do Sul. Era formado por várias pequenas propriedades interligadas e foi escavado pela primeira vez na década de 1970 pelo arqueólogo pioneiro Revil Mason, da Universidade de Witwatersrand.
Os habitantes de Broederstroom foram os primeiros povos da Idade do Ferro a viver nessa região. Mais tarde, outro importante arqueólogo da universidade, Tom Huffman, usou os estilos e padrões dos fragmentos de cerâmica encontrados no sítio para rastrear suas origens: da costa oriental de KwaZulu-Natal, passando pela África Oriental, até a região a leste da Nigéria, onde se originaram as línguas bantas.
O sítio revela que, há cerca de 1.600 anos, pessoas já cultivavam a terra, criavam animais, produziam cerâmica e fundiam ferro na África do Sul. Trouxeram consigo as raízes linguísticas das línguas bantas, faladas hoje por 80% dos sul-africanos, e introduziram práticas agrícolas e de criação que lhes deram vantagens consideráveis em relação ao modo de vida nômade dos grupos de caçadores-coletores da Idade da Pedra que antes habitavam a região.
Agricultura e criação de animais
Os moradores de Broederstroom cultivavam a terra e armazenavam sua produção em fossas subterrâneas vedadas e revestidas com esterco bovino. O gás metano liberado pelo revestimento ajudava a controlar infestações de insetos, permitindo conservar os grãos por várias estações. Para o consumo diário, também guardavam cereais em cestos de vime apoiados sobre pedras, de modo a protegê-los da umidade.
Artefatos do período tardio da Idade da Pedra foram encontrados no local. É provável que, à medida que essa cultura perdia espaço diante dos grupos da Idade do Ferro, seus integrantes tenham sido absorvidos ou submetidos pelos novos habitantes. Os instrumentos de pedra recuperados se parecem com os encontrados na caverna Jubilee, em outra parte da região de Magaliesberg, e eram usados para raspar e preparar peles. É possível que pessoas ligadas à cultura da Idade da Pedra tenham trabalhado como serviçais em tarefas desse tipo.
A disposição das moradias e dos cercados de gado mostra que o modelo de assentamento organizado em torno de um curral central, com predomínio masculino, já havia sido introduzido na África do Sul nesse período. O mesmo vale para o costume do lobola, pagamento associado ao casamento, que ainda marca estruturas sociais, parentesco e relações de poder em muitas sociedades sul-africanas.
O gado era central para a economia, e sua posição dentro do assentamento refletia diversas normas sociais. Havia uma hierarquia organizada por parentesco, com liderança masculina hereditária. As mulheres eram associadas ao cultivo e às colheitas; por isso, os depósitos de grãos ficavam nas áreas femininas do povoado.
As famílias viviam em pequenas cabanas circulares, agrupadas em torno do curral central. Cada moradia tinha de três a quatro metros de diâmetro e era construída com galhos entrelaçados cobertos de argila, sob um telhado cônico de palha.
Também se praticavam sepultamentos rituais. Os corpos de homens importantes eram enterrados no curral, em consonância com o valor simbólico do gado. Conchas de cauri encontradas em Broederstroom indicam ainda alguma forma de comércio ou troca por intermédio de pessoas ligadas à costa do oceano Índico, onde essas conchas eram utilizadas como moeda.
As três etapas da produção de ferro
O ferro era produzido em três etapas: extração do minério, redução no forno e forjamento. Em Broederstroom, o minério era obtido em depósitos superficiais próximos ao assentamento. Os mineiros o levavam a um forno de fundição, no qual o carvão vegetal podia atingir temperaturas de até 1.500 °C.
A massa metálica produzida no forno era deixada esfriar. Em seguida, os trabalhadores quebravam o material para separar o ferro da escória indesejada e dos resíduos de carbono.
Ensaios metalúrgicos realizados em um bloco de ferro de Broederstroom indicaram que ele havia sido produzido envolvendo-se fragmentos de ferro impuro em um molde de argila refratária e aquecendo-os no forno. O calor soldava os fragmentos entre si e ajudava a separar a escória e os contaminantes de carvão restantes.
O molde era então retirado do fogo e quebrado, revelando um lingote refinado. O metal seguia para as forjas, onde podia ser transformado em enxadas, lanças e outros utensílios.
Cinco montes de escória de ferro foram descobertos em Broederstroom, sugerindo que se tratava de um centro de produção relativamente grande. Ainda não foram encontrados fornos de redução propriamente ditos, em oposição às forjas; eles podem ter ficado a certa distância da aldeia.
Poucos objetos de ferro foram recuperados. É possível que os produtos tenham sido levados pelos usuários quando deixaram o local e, depois de descartados, tenham se corroído ao longo de milhares de anos.