Esta é a segunda parte da série de Kathy Munro sobre a torre de água de Yeoville. O relato examina em profundidade uma planta histórica e revela os segredos da origem da estrutura. O artigo apareceu originalmente na edição de dezembro de 2018 da revista Architecture SA. Agradecimentos a Paul Kotze pela autorização de publicação e a Gail Wilson pelo uso de algumas de suas fotografias magníficas.
Uma planta com assinatura alemã
O documento é, literalmente, uma planta arquitetônica, um desenho técnico. Primeiro aparece um título em alemão: Wasserturm mit Behälter von 50,000 gallons Fassungsraum, ou “torre de água com reservatório de capacidade para 50 mil galões”. A expressão indica a origem alemã. Podemos datar a torre com precisão porque há um lugar e uma data no canto inferior direito: “Dortmund, 2 de janeiro de 1913”.
No canto superior direito leem-se “Com. 2044” (número do pedido) e “Blatt 1” (folha 1). Podemos supor que se trata de uma encomenda e da primeira folha do conjunto de desenhos técnicos. No canto superior esquerdo está o nome “Fa. Geo L. Küstner, Johannesburg”. Isso cria a ligação com um empresário de Joanesburgo e com a licitação mencionada nos relatórios anuais do engenheiro municipal.
Quem era Geo L. Küstner?
Fa. é a abreviatura alemã de Firma, empresa. A Geo L. Küstner (Pty) Ltd foi uma firma pioneira de Joanesburgo, fundada em 1896, especializada na importação de máquinas-ferramentas e suprimentos de engenharia e eletricidade.
Seu fundador, Küstner, veio de Heidelberg, na Alemanha. Ainda jovem, assumiu uma posição numa empresa comercial de Londres. Depois de chegar a Joanesburgo, tornou-se representante de vários fabricantes estrangeiros.
Küstner deixou a África do Sul durante a Guerra Anglo-Bôer e foi à Austrália investigar oportunidades de negócios, mas voltou ao país em 1902 com a esposa e o filho pequeno. Reestabeleceu o negócio em Joanesburgo, comprou um terreno e construiu instalações na esquina das ruas Marshall e Ferreira.
A firma importava equipamentos para abrandamento e purificação de água, estruturas de aço, lâmpadas de mão e de carbureto para mineiros, além de cianeto e mercúrio destinados às minas de ouro de Witwatersrand. Em 1912, ganhou a licitação municipal para fornecer a torre metálica de água de Yeoville.
Uma breve história da empresa apareceu num informe publicitário no livro Seventy Golden Years, de Felix Stark, sobre a história de Joanesburgo até 1956.
Após a Primeira Guerra Mundial, com o desenvolvimento industrial sul-africano, a empresa se adaptou e, em 1920, ampliou a linha de importações para incluir máquinas-ferramentas e suprimentos de engenharia e eletricidade. Küstner morreu em 1923; seu filho Robert V. Küstner assumiu o negócio.
Um anúncio de 1928 mostra que a firma representava ao menos dez companhias alemãs de engenharia em Witwatersrand, entre elas Watt e Schuchardt & Schütte, de Berlim; Naxos-Union e Günther & Co., de Frankfurt; Bochsling-Buderus, de Wetzlar; Weipert, de Heilbronn; Pohlig e Reisert, de Colônia; e A. Klönne, de Dortmund.
Entre os itens oferecidos estavam ferramentas de precisão para mineração, transportadores a cabo, instrumentos científicos, lâmpadas, cadinhos, lixas abrasivas e rebolos.
Há registro da constituição de Geo L. Küstner como sociedade limitada em 1936. O South African Mining Yearbook de 1941–1942 traz um anúncio que a apresenta como fornecedora especializada de materiais de mineração, engenharia e eletricidade e importadora de máquinas-ferramentas de alta qualidade. Robert V. Küstner era o diretor administrativo; o escritório ficava na Marshall Street. Em 1950, a empresa mudou-se para um novo edifício na Central Road, em Fordsburg.
O carimbo quase apagado
Outra característica interessante da planta é um carimbo vermelho, sob o título, quase invisível e em grande parte ilegível. Com uma luz potente, porém, é possível distinguir palavras em alemão suficientes para compreender sua mensagem:
Somente o usuário contratualmente autorizado poderá utilizar [trecho ilegível]... O documento não poderá ser transmitido, copiado nem comunicado a terceiros para uso posterior.
Era uma reivindicação de propriedade ou de direitos sobre o desenho feita pela empresa. O nome “Aug. Klönne, Dortmund” assina a declaração. Foi daí que começou a busca pelas origens da torre.
A planta contém cinco desenhos de engenharia estrutural: o contorno da torre visto em planta e cortes com diferentes detalhes técnicos. Mostra a elegante armação alta de aço, o robusto suporte circular de ferro que sustenta uma passarela, o tanque esférico e o adorno quase gótico que aponta para o céu — na realidade, um ventilador.
As informações coincidem com o que sabemos sobre a conclusão da torre em 1914. Para situá-la corretamente, ela pertence ao reinado de Jorge V ou, de forma ainda mais exata, ao período do imperador Guilherme II da Alemanha. Não é vitoriana nem eduardiana, como já foi descrita.
A certidão de nascimento da torre
Esta é a Wasserturm de Joanesburgo. É emocionante encontrar o documento de origem de um marco tão querido da cidade. A planta oferece evidência material que elimina ao menos parte das conjecturas.
Sua importância está em relacionar Yeoville e Joanesburgo ao mundo do projeto industrial alemão de vanguarda às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Demonstra que Joanesburgo já havia alcançado certo grau de sofisticação e avanço tecnológico, tornando-se uma localidade de caráter permanente, embora só tenha recebido oficialmente o status de cidade em 1928.
A planta é, essencialmente, a certidão de nascimento da torre de água de Yeoville.
A busca por August Klönne e outras torres
A descoberta levou à pesquisa sobre August Klönne e à pergunta: existiriam outras “torres de Yeoville” em algum lugar, provavelmente na Alemanha?
A pesquisa revelou comunidades de entusiastas de torres de água na Europa, incluindo grupos na Suécia, na Grã-Bretanha e na Alemanha. Assim como os apaixonados por ferrovias, essas pessoas documentam, conservam e divulgam os reservatórios elevados ainda existentes. Uma torre construída antes da Primeira Guerra Mundial, bem preservada e ainda em funcionamento, é um raro legado da arquitetura e da engenharia.
August Klönne, o engenheiro e industrial
Aug. Klönne foi uma empresa alemã de engenharia criada em 1879 pelo empresário, inventor e empreendedor August Klönne. Nascido em 1849 em Mülsborn, hoje Meschede, na Renânia do Norte-Vestfália, ele viveu durante a transformação da Alemanha numa grande potência industrial europeia.
Engenheiro civil, especializou-se inicialmente na construção de fornos para produção de gás a partir de carvão. Começou a vida profissional como aprendiz, vindo de uma origem modesta, porém empreendedora.
Ainda jovem, trabalhou na companhia de gás de Bochum. Seu bom desempenho levou à encomenda de uma nova instalação de gás naquela cidade. Em 1873, com apenas 24 anos, entrou para a diretoria da empresa de água e gás de Dortmund. Ascendeu até tornar-se um respeitado e poderoso homem de negócios ligado à engenharia, indústria, fabricação de cerveja e bancos.
Sua cidade era Dortmund, no coração industrial da Alemanha, no vale do Ruhr. Ali se ancorava a Revolução Industrial alemã do século XIX, baseada em carvão, ferro, vapor e gás, fundamentos da indústria pesada e da modernização. No fim do século, esse crescimento rivalizava com a força industrial britânica e começava a superá-la em vários campos.
August Klönne tornou-se um dos grandes nomes industriais alemães, ao lado de empresas como Krupp, Siemens e Thyssen.
De oficinas de gás a pontes, estações e tanques
Homens como Klönne transformaram as cidades industriais alemãs com redes de água, fábricas de gás, siderúrgicas, estações ferroviárias, pontes, fábricas têxteis e cervejarias.
A necessidade de componentes de ferro para as obras da fábrica de gás de Dortmund levou-o a abrir sua própria oficina de engenharia. Em 1886, adquiriu as oficinas da Dortmund Bridge Construction Stock Company. Desses pequenos começos nasceu uma firma de renome internacional.
Klönne ampliou sua capacidade de produção para incluir tanques de gás e de água, pontes ferroviárias, coberturas de estações, eclusas, barragens e elevadores de navios.
A pesquisa também revelou uma patente da década de 1880 registrada nos Estados Unidos e na Europa para lavagem e purificação de gás. As patentes eram um instrumento importante para promover e explorar invenções técnicas.
As grandes estações ferroviárias do século XIX, com suas treliças e arcos de aço, eram obras-primas da época. A empresa Klönne forneceu, por exemplo, a estrutura metálica da imponente estação central de Dresden, inaugurada em 1898 e danificada pelo bombardeio aliado em 1945.
O tanque esférico patenteado em 1898
O negócio dos reservatórios elevados nasceu da combinação de especializações em tanques de gás e estruturas de aço. Em colaboração com outros engenheiros, como Georg Barkhuizen, Klönne construiu o primeiro reservatório anular de gás instalado acima do solo. Mais tarde surgiram os tanques elevados de água.
No fim do século XIX, Klönne tornou-se o único fabricante dos reservatórios de água Barkhuizen, modelo dominante graças à qualidade e à funcionalidade. Pesquisas adicionais resultaram numa patente concedida a Klönne em 1898 para um reservatório esférico aperfeiçoado.
A partir de 1906, o tanque esférico tornou-se o modelo padrão da empresa. Essas estruturas eram pré-fabricadas em Dortmund e enviadas para montagem na Alemanha e em outros países.
August Klönne morreu em Dortmund em 1908, aos 59 anos. A empresa passou às mãos dos filhos gêmeos Max Klönne (1878–1945) e Moritz Klönne (1878–1962), depois chegando à terceira geração. Eles ampliaram as atividades e aparentemente continuaram erguendo torres de água Klönne.
As realizações da companhia incluíam estações e plataformas ferroviárias, pontes ferroviárias em Dresden, Essen, Burg e Dortmund, além de grandes pontes sobre rios, como a Hohenzollern, sobre o Reno, em Colônia.
Klönne moldou a paisagem física e industrial de Dortmund antes da Segunda Guerra Mundial, construindo viadutos, pontes, a estação principal e suas plataformas. Outros projetos incluíram trechos do viaduto do Ruhr perto de Witten, entre 1913 e 1916, e a ponte Hindenburg em Halle (Saale), construída na mesma época e demolida somente em 2006.
A firma também construiu na Holanda uma ponte ferroviária de via dupla e uma ponte giratória de 264 metros, uma das maiores da Europa. Trabalhava ainda em instalações de mineração e metalurgia, tanques de gás, pontes, guindastes, mercados cobertos, fábricas de gás e estruturas de aço para serviços hidráulicos, como elevadores de navios e docas flutuantes.
Mais tarde, acompanhando a evolução técnica, construiu hangares para dirigíveis e hidroaviões, guinchos para embarcações, outros tanques de gás e uma ponte rodoviária sobre o Reno em Leverkusen.
Em 1958, a Aug. Klönne empregava aproximadamente 1.700 pessoas. A empresa prosperou por três gerações de propriedade e administração familiar, sobrevivendo às guerras e mudanças políticas do século XX. Em 1966, contudo, foi adquirida pela Thyssen-Röhrenwerke AG.
A torre azul de Ahlen, irmã da torre de Yeoville
A construção mais próxima de uma torre gêmea da de Joanesburgo é a Blauer Wasserturm, a Torre Azul de Ahlen, na Guissener Strasse, região do Ruhr.
Marco da cidade, foi erguida entre 1915 e 1917 pela Aug. Klönne. Tem 44 metros de altura e abasteceu a mina e o povoado de Zeche Westfalen, continuando integrada ao sistema público de água até 1985.
Na década de 1980 houve planos de demolição, mas entusiastas locais do patrimônio fizeram campanha por sua preservação, e a cidade de Ahlen assumiu a propriedade. O equipamento passou por uma grande restauração e hoje é reconhecido como monumento industrial.
Também é lembrado por demonstrar a aplicação de rebites na construção de torres, técnica visível na torre de Yeoville.
As torres de Ahlen e Yeoville são exemplos excelentes da forma hemisférica e do desenho das armações de sustentação na base e em torno da circunferência. A “bola”, ou reservatório, repousa numa estrutura de aço e representa uma combinação notável de funcionalidade industrial e qualidade de projeto.
Uma torre pré-fabricada importada para Joanesburgo
É curioso que os relatórios do engenheiro municipal de Joanesburgo entre 1913 e 1915 não mencionem que o tanque e sua torre de sustentação foram importados da Alemanha.
O guia Mervyn King Ridge Trail, publicado em 1986, indica que a torre de Yeoville foi fabricada em Dortmund, transportada até Joanesburgo e montada no local em 1913. Trata-se, portanto, de uma obra pré-fabricada — algo nada incomum no fim do século XIX e no início do XX, antes que houvesse uma indústria local consolidada de ferro e aço.
Graças às pesquisas do professor Gilbert Herbert, sabemos que chalés, igrejas, teatros e estabelecimentos comerciais eram enviados em seções pré-fabricadas aos territórios do Império Britânico, como Austrália, Nova Zelândia e África do Sul. Kimberley conserva bons exemplos.
A residência Doornkloof, de Jan Smuts, antigo primeiro-ministro, em Irene, fora originalmente um refeitório de oficiais britânicos importado de Middelburg, no então Transvaal. Herbert, porém, concentrou-se nos aspectos arquitetônicos e não explorou tanto a arqueologia industrial e a pré-fabricação representadas pelos primeiros equipamentos de içamento das minas de Kimberley e Witwatersrand.
A participação de alemães e holandeses na economia do Transvaal foi documentada nos grandes estudos sobre os projetos ferroviários e os edifícios da NZASM, realizados por De Jong, van der Waal e pela equipe de Bakker, Clarke e Fisher.
A primeira estação Park, inicialmente chamada Park Halt, era uma estrutura pré-fabricada importada da Holanda, datada de 1896–1897 e projetada pelo arquiteto holandês Jacob Klinkhammer.
As novas minas de Witwatersrand e Joanesburgo — Village Main, City Deep, Ferreira’s Mine e Crown Mines, por exemplo — precisavam de estruturas de içamento e baterias de pilões. Antes da chegada das ferrovias, todos os grandes equipamentos e maquinários tinham de ser importados da Europa por navio e transportados até o planalto em carroças puxadas por bois.
Poucas dessas estruturas sobrevivem hoje, mas seu volume e sua presença marcante moldaram a paisagem da cidade, tornando-se referências visuais distintivas. É bem possível que estruturas de içamento produzidas pela Aug. Klönne também tenham chegado a Witwatersrand em partes pré-fabricadas. Essa hipótese, porém, ainda exige pesquisas.
Na ocasião do relato original, a Johannesburg Heritage Foundation oferecia uma pequena tiragem de gravuras da torre, por 400 ou 500 rands, conforme a quantidade comprada. O contato indicado era Eira, pelo e-mail mail@joburgheritage.co.za.
Sobre a autora do relato: Kathy Munro é professora associada honorária da Escola de Arquitetura e Planejamento da Universidade de Witwatersrand. Teve uma longa carreira acadêmica e de gestão, formou-se em história econômica e reuniu uma coleção eclética de livros ao longo de quarenta anos. Seus interesses incluem estudos africanos, história de Joanesburgo, história da arte, viagens e histórias de negócios e bancos. Pesquisa arquitetura histórica e patrimônio, escreve resenhas de livros, integra o conselho da Johannesburg Heritage Foundation e atua como mediadora no Wits Arts Museum. Também desenvolve trabalhos sobre arquitetos, cemitérios de guerra e memoriais sul-africanos.