Antes da descoberta do ouro em 1886, Witwatersrand era atravessada pelo som de nascentes cristalinas, riachos e cachoeiras. Hoje é difícil encontrar essas águas: foram canalizadas em tubos e galerias sob a cidade.
Mesmo quando conseguimos localizar as saídas das antigas nascentes e dos spruits, pequenos cursos d'água, o que encontramos é muito poluído. Vazamentos de esgoto, lixo não recolhido, drenagem ácida das minas e outras contaminações químicas levaram a qualidade da água a uma situação crítica na paisagem densamente habitada e industrializada de Witwatersrand.
Fiquei interessada em encontrar um desses riachos escondidos na região de City and Suburban, em Joanesburgo, perto da rodovia N2. Sua forma atual é um canal de concreto e pedras talhadas, que despeja água tóxica.
A qualidade da água que emerge ali é tão ruim que o local parece simbolizar a grave poluição hídrica da cidade, o envelhecimento da infraestrutura e as dificuldades para dar destino adequado aos resíduos. Ao longo de aproximadamente dois quilômetros entre uma possível fonte subterrânea limpa ao norte e a saída do canal, a água sofre terrível contaminação enquanto percorre galerias fechadas.
Essa água de aparência mortal segue para o sul, sem tratamento, entrando em sistemas fluviais mais naturais até integrar a bacia do rio Vaal.
Um tubo subterrâneo e um canal de quatro pontes
Entre a fonte oculta e a saída há um tubo subterrâneo, depois um canal a céu aberto com quatro pontes rodoviárias, e finalmente o riacho volta a aparecer.
É inevitável perguntar por que um trecho foi construído como tubulação e outro como canal e quais decisões determinaram essa diferença.
A maneira como o canal se encaixa entre os edifícios, inclusive o complexo comercial Mai Mai, sugere que já existia quando a região foi construída, ou que foi feito durante sua urbanização. Acredita-se que o Mai Mai tenha abrigado originalmente estábulos e moradias na antiga Joanesburgo, quando estar próximo a um riacho seria importante.
O complexo foi construído depois de 1929, pois não aparece no mapa de Holmden daquele ano. É possível que o canal também tenha surgido nessa época, dado seu encaixe preciso na área do mercado. Nem o sistema de canais nem rios urbanos são indicados naquele mapa.
Witwatersrand divide duas grandes bacias hidrográficas
O divisor continental de águas de Witwatersrand passa por Randfontein, a oeste, segue pela faixa das minas de ouro de Krugersdorp, ao longo da elevação Northcliff e da Ontdekkers Road, atravessa Braamfontein e Kensington, o aeroporto OR Tambo e o norte de Benoni.
Os riachos que descem para o sul entram na bacia do Vaal, depois no sistema Senqu–Orange e finalmente deságuam no Atlântico. A chuva que cai ao norte do divisor escoa para o oceano Índico pelo sistema do rio Limpopo (GCRO, 2017). A maior parte do centro de Joanesburgo está na bacia primária Vaal–Orange; por isso, seus córregos seguem para o sul.
Os rios da África do Sul estão em estado crítico de poluição. Recebem esgoto não tratado de estações municipais que funcionam precariamente e de assentamentos informais sem saneamento. O avanço urbano contínuo, a agricultura, a silvicultura, a mineração e a indústria contribuíram ao longo dos anos com diferentes contaminantes, sem esforços suficientes para responsabilizar os setores poluidores.
O descarte de lixo doméstico junto aos cursos d'água também representa um problema enorme nas cidades. Mesmo quando os resíduos são jogados longe dos riachos, a chuva carrega lixo e matéria fecal para os bueiros e depois para os rios locais.
Em busca de um riacho escondido
Eu já havia fotografado o triste cruzamento das ruas City and Suburban e Maritzburg, com sua ponte e seu canal. Desta vez, porém, saí do carro.
Algumas áreas do centro de Joanesburgo não são seguras para pessoas de fora, e essa é uma delas. Fui imediatamente cercada por moradores querendo saber o que fazia ali. Até um carro sem identificação, ocupado por homens que afirmaram ser policiais, parou para perguntar se estava tudo bem. Todos foram amigáveis.
As pessoas com quem conversei disseram que o riacho fazia parte do sistema municipal de drenagem pluvial e que a água não vinha de uma nascente. Eu achava possível que tivesse as duas origens. Ninguém comentou a baixa qualidade da água.
O canal e as quatro pontes rodoviárias não possuem grande valor arquitetônico, salvo alguns trechos de cantaria. A saída do canal não tem cerca e pode representar perigo para pedestres à noite.
Na ponte mais ao sul, no cruzamento das ruas City and Suburban e Maritzburg, há dois túneis separados por uma divisória de concreto, presumivelmente recebendo água de fontes distintas. O túnel da esquerda pode ser destinado às chuvas. O canal não está cercado. A vista dali aponta para o norte.
O riacho corre para o sul, saindo de City and Suburban, passando por tubulações sob a rodovia M3 e os pátios ferroviários de Kaserne, até desaguar na represa de Rocherville, segundo comunicação pessoal de Rod MacKinnon em 2023.
Em janeiro de 2023 quase não havia correnteza, mas é provável que o canal transporte um grande volume de água durante tempestades.
Um bairro cercado por antigas minas de ouro
A área pertence à região original dos campos auríferos de Central Rand e ao território da City and Suburban Gold Mining Company, fundada em 1887, assim como as minas vizinhas Jubilee, Salisbury, Jumpers e Wolhuter.
As minas de Central Rand, inclusive City and Suburban, haviam fechado até o fim dos anos 1970. Hoje não resta no bairro qualquer vestígio visível da mina City and Suburban, de seus edifícios ou equipamentos — uma perda triste do ponto de vista do patrimônio.
Pouquíssimas estruturas históricas da mineração foram preservadas ou sequer documentadas. Destruiu-se uma história riquíssima (Fourie e Van der Walt, 2006). Restam as barragens de rejeitos e uma paisagem poluída; até os depósitos de rejeitos estão desaparecendo, reprocessados para recuperar o ouro residual.
Atualmente, atividades importantes de sobrevivência na City and Suburban Street incluem lavagem de táxis e coleta de resíduos recicláveis. Um pequeno assentamento informal cresceu em torno desses serviços, sem coleta municipal de lixo.
Outras atividades econômicas incluem negócios com depósitos de sucata e centros que compram resíduos, além de oficinas de desmonte que reaproveitam veículos considerados perda total, escondidas atrás de muros altos. A venda de comida preparada e bebidas geladas a pedestres, motoristas de táxi, lavadores de carros e catadores também é importante.
Seria o antigo Natal Spruit?
Os primeiros bairros de Doornfontein, Fordsburg e Jeppe foram oficialmente criados por volta de 1889. Nas suas periferias ficavam acampamentos de mineiros, como Ferreira's Camp e Natal Camp.
Portanto, embora o riacho pareça hoje ecologicamente morto — apenas uma drenagem urbana cheia de esgoto e lixo —, ele já correu a céu aberto. Por volta de 1890, sua água era boa o suficiente para que garimpeiros instalassem tendas às margens.
Um trecho do mapa de Joanesburgo feito por G. R. Andrews em 1890 mostra um riacho sem nome, próximo a uma estação de bombeamento perto da Beacon Street, do Jeppestown Oval e da Natal Road. Essa localização coloca o curso d'água nas proximidades do canal que tentamos rastrear sob a cidade.
Um texto de W. J. P. Carr menciona que o atual mercado Mai Mai estava “muito perto do local de Natal Camp, inicialmente chamado Meyers Camp, onde os garimpeiros vindos de Natal montavam suas tendas às margens do chamado Natal Spruit, agora canalizado”.
A Natal Road aparece no mapa de Andrews de 1890. O acampamento provavelmente ficava ao longo dessa estrada, perto de Jeppestown. Faz sentido que os garimpeiros escolhessem um lugar junto à água. Mais tarde, a Natal Road se tornaria Commissioner Street.
Nosso riacho oculto provavelmente era o Natal Spruit citado por Carr, embora possa receber outro nome atualmente.
Um mapa do livro Johannesburg: One Hundred Years indica Natal Camp junto a um pequeno curso d'água sem nome, que parece corresponder ao canal que hoje emerge na City and Suburban Road. O riacho mais curto alimentava o Natal Spruit maior ao sul.
O Google Earth foi utilizado para comparar ruas e infraestrutura atuais com o mapa de Andrews de 1890 e outros documentos cartográficos.
Nas imagens de satélite, a possível localização da estação de bombeamento de 1890 se alinha ao trecho do canal antigo ainda visível junto ao lado leste do Mai Mai, identificado pelas fileiras de telhados verdes inclinados. Deve existir uma tubulação subterrânea que liga o canal ao antigo local da estação de bombeamento — possivelmente também à fonte original. O local de Natal Camp foi estimado com base no mapa de Joanesburgo de 1912.
Como seria viver naquele acampamento?
É muito difícil imaginar a antiga Joanesburgo, embora existam fotografias dos acampamentos de tendas, das pequenas barracas de madeira e ferro e do crescimento rápido de ruas e de um centro urbano elegante.
As imagens não conseguem transmitir as dificuldades e o estresse psicológico enfrentados pelos homens que chegaram cheios de esperança.
Natal Camp, um acampamento de mineiros junto ao chamado Natal Spruit, parece não ter sido fotografado. Certamente era um lugar extremamente rudimentar e desconfortável: enlameado e quente no verão, frio e poeirento no inverno.
As fotografias da primeira Joanesburgo mostram que a paisagem mineradora perdeu rapidamente a vegetação de pastagens. As poucas árvores junto às formações rochosas provavelmente viraram lenha. Qualquer animal selvagem encontrado acabaria na panela.
Naqueles tempos não havia lonas plásticas, cordas de náilon nem banheiros químicos práticos, embora já existisse ferro corrugado. Muitos buscadores de fortuna talvez nem conseguissem comprar materiais para montar um abrigo decente.
Esses aventureiros e seus trabalhadores negros viviam provavelmente em condições deploráveis: mal alimentados, sujeitos a doenças, carrapatos e outras pragas, violência, brigas, acidentes de trabalho e, muito possivelmente, consumo excessivo de álcool barato e de qualidade ruim.
O canal como patrimônio natural de Joanesburgo
As nascentes e córregos de Witwatersrand integram o patrimônio ambiental e natural de Joanesburgo. Deveriam receber muito mais proteção, inclusive projetos de recuperação, para que possam fornecer água limpa à medida que a cidade enfrenta restrições crescentes de abastecimento.
Diante dos problemas atuais da administração municipal, porém, esse tipo de proteção, tanto para o patrimônio da mineração quanto para os recursos hídricos, parece improvável.
Pelos mapas antigos, a origem do pequeno riacho parece situar-se perto da Berea Street, em City and Suburban, onde havia uma estação de bombeamento e um curso d'água indicado por Andrews em 1890.
As posições do riacho nos mapas de 1890 e 1912 coincidem com sua localização atual. Presumo que a fonte original fosse onde ficava a estação de bombeamento. Com base no texto de Carr de 2015, o riacho se chamava Natal Spruit.
Na minha opinião, o sistema de canais do Natal Spruit em City and Suburban, incluindo suas quatro pontes, deveria ser reconhecido como patrimônio e protegido pela Lei Nacional de Recursos Patrimoniais.
O antigo local da estação de bombeamento, o Natal Camp e a área de operação da mina City and Suburban Gold também deveriam receber placas explicativas para preservar a memória de sua importância na história de Joanesburgo.
O contraste com as nascentes de Pretória
Em comparação, a municipalidade de Tshwane, que inclui Pretória, cuidou de proteger as muitas nascentes de água doce que abastecem a cidade.
Aproximadamente 57 milhões de litros por dia vinham de fontes subterrâneas, equivalentes a 7,5% das necessidades totais, enquanto os 742 milhões de litros restantes eram obtidos de represas e companhias regionais de abastecimento.
Até a década de 1930, duas nascentes de Fountains Valley forneciam toda a água potável de Pretória (Dippenaar, 2013). Para preservar essas fontes, que produziam respectivamente 24 milhões e 18 milhões de litros por dia, a região foi protegida como reserva natural: Groenkloof Nature Reserve, declarada pelo presidente Paul Kruger em 1895.
Existem outras nascentes menores, como Grootfontein, que também abastecem Pretória por sistemas de transferência. No caso de Grootfontein, a reserva natural Rietvlei cria uma zona de proteção em torno da fonte (Dippenaar, 2013). A área foi declarada reserva em 1934, proibindo novas construções em suas proximidades.
A diferença entre Pretória e Joanesburgo, evidentemente, é o impacto ambiental da indústria de mineração de ouro.
Sobre a autora do relato original: Sue Taylor é doutora em Biotecnologia Vegetal pela Universidade de KwaZulu-Natal. Trabalha como consultora de desenvolvimento e tem experiência de pesquisa, escrita e docência sobre mudanças climáticas e questões sociais e de desenvolvimento na África do Sul e no continente africano. Atuou em biotecnologia, conservação da natureza, organizações não governamentais de ativismo climático e divulgação científica. Interessa-se atualmente pelas cidades e pela adaptação urbana às mudanças climáticas.
É uma das organizadoras de um livro sobre Phuthaditjhaba, QwaQwa, publicado em janeiro de 2023, ao qual também contribuiu com um capítulo sobre arborização urbana como preparação climática: Sustainable Futures in Southern Africa's Mountains: Multiple Perspectives on an Emerging City, organizado por Andrea Membretti, Sue Jean Taylor e Jess L. Delves, Springer, 2023. O livro foi disponibilizado em acesso aberto em https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-031-15773-8.
Fontes
Businesstech (2016). Joburg is 130 Years Old — This Is What It Looked Like Back Then. Redação.
Carr, W. J. P. (2015). Mai Mai Market — “The Place of Healers”. The Heritage Portal.
Christie, S. (2021). Taking a Tour of Gauteng’s Dangerous Drainage System. Sunday Times.
Dippenaar, M. A. (2013). Hydrogeological Heritage Overview: Pretoria’s Fountains — Arteries of Life. Water Research Commission of South Africa e University of Pretoria.
GCRO (2017). Watershed Boundaries of the GCR.
Mapa de Holmden de Joanesburgo, 1929. Johannesburg1912.
Krüger-Franck, E. (2019). Anthropocentric Impacts on the Ecology and Biodiversity of the Natalspruit Watercourse and Its Associated Wetlands. Dissertação de mestrado, Department of Environmental Science, UNISA.
Munro, K. (2015). What Did Johannesburg Look Like in 1889? The Heritage Portal.
Snyman, W. (2021). A Return to Source: Saving the Witwatersrand’s Ancient Freshwater System to Save South Africa’s Rivers.
Tutu, H., McCarthy, T. S. e Cukrowska, E. (2008). The Chemical Characteristics of Acid Mine Drainage with Particular Reference to Sources, Distribution and Remediation: The Witwatersrand Basin, South Africa, a Case Study. Applied Geochemistry, 23(12), pp. 3666–3684.
Fourie, W. e Van der Walt, J. (2006). Heritage Scoping Assessment for the Top Star Dump Mining Project — Crown Gold Recoveries.