Em Fordsburg, pedestres atravessam apressados uma praça de mercado sem características especiais, delimitada pelas ruas Albertina Sisulu, Dolly Radebe, Mint e Central. Mal imaginam que o lugar marcou o último reduto dos grevistas armados durante a Revolta de Rand de 1922.
Conhecido como Greve dos Mineiros de 1922, Revolta de Rand ou mesmo Revolta Vermelha, o acontecimento ocorreu apenas cinco anos depois de os bolcheviques tomarem o poder na Rússia. Continua sendo a maior convulsão política violenta de Witwatersrand, ou Rand.
Embora Rand tenha mudado quase ao ponto de ficar irreconhecível, muitos locais históricos ainda existem e permitem vislumbrar o acontecimento devastador. Alguns desses lugares serão apresentados num artigo futuro.
Os relatos divergem, mas o relatório do Comitê Judicial de Investigação da Lei Marcial informou que as mortes durante a greve e a subsequente revolta armada foram de 43 soldados, 29 policiais, onze revolucionários, 28 suspeitos de participação revolucionária e 42 civis.
Outros 133 soldados, 86 policiais, 45 revolucionários, 73 suspeitos de participação revolucionária e 197 civis ficaram feridos.
Depois de sufocada a revolta, 4.692 homens, 62 mulheres e quatro crianças foram detidos para interrogatório. Oitocentas e cinquenta e três pessoas, incluindo nove mulheres, foram acusadas de diversas infrações, desde assassinato e traição até violações menores dos regulamentos da lei marcial.
Dez sindicatos criaram o Comitê de Defesa Jurídica da Greve do Transvaal para arrecadar fundos e garantir representação legal às pessoas processadas. Quarenta e seis foram acusadas de assassinato, e dezoito receberam a sentença de morte. Apenas quatro — C. C. Stassen, S. A. “Taffy” Long, Herbert K. Hull e David Lewis — foram executados entre 5 de outubro e 17 de novembro de 1922. Protestos públicos veementes contra os enforcamentos obrigaram o governo a recuar e recomendar clemência ao governador-geral para os outros catorze condenados.
A grave recessão econômica do pós-guerra, que durou de 1920 ao início de 1922, está na origem da greve. A queda do preço do ouro de 6,37 para 5,20 libras por onça fina, ameaçando minas de ouro de rentabilidade marginal, contribuiu para o conflito.
A Câmara das Minas apresentou três propostas para as negociações salariais da mineração de ouro. A primeira era reduzir os salários dos mineiros, argumentando que o custo de vida caía. A segunda propunha modificar a organização do trabalho subterrâneo para diminuir custos. A terceira era alterar o Acordo de Manutenção do Status Quo, reduzindo a proporção de empregados brancos em relação aos negros.
Em julho de 1921, E. J. Way, presidente do Instituto dos Engenheiros, afirmou que 50% dos mineiros brancos poderiam ser substituídos por empregados negros qualificados, gerando economia anual de um milhão de libras. Disse ainda que a eliminação gradual da “barreira sentimental de cor” traria prosperidade duradoura à indústria mineira, permitindo reabrir minas de ouro de baixa rentabilidade.
A Federação Industrial Sul-Africana (SAIF), representante dos sindicatos, rejeitou as propostas da Câmara. Argumentava que era injusto reduzir todos os salários ao nível que as minas menos lucrativas poderiam pagar, pois muitas explorações auríferas continuavam rentáveis.
A barreira racial remontava à Lei de Minas e Obras de 1911, que reservava certas ocupações aos brancos. Para assegurar o funcionamento das minas durante a guerra, a Câmara e a SAIF criaram, em 1918, o Acordo de Manutenção do Status Quo. Ele proibia substituir trabalhadores brancos por negros nas ocupações tradicionalmente exercidas pelos primeiros. Em 1920, 32 ocupações que empregavam 7 mil pessoas eram reservadas a brancos, numa proporção de um trabalhador branco para cada 8,2 negros. A SAIF temia que 4 mil brancos perdessem o emprego caso o acordo fosse modificado, embora a Câmara afirmasse que a mudança afetaria apenas cerca de 2 mil.
As minas de carvão do Transvaal também atravessavam situação desesperadora. Durante a Primeira Guerra Mundial, haviam prosperado com o aumento das exportações. Em 1921, porém, os mercados externos desapareceram devido ao carvão britânico mais barato. A Câmara propôs, portanto, reduzir os salários dos mineiros de carvão em cinco xelins por dia.
Embora os argumentos da Câmara fossem válidos, os temores dos mineiros brancos também eram reais. Milhares de africâneres pobres haviam deixado as fazendas para trabalhar nas minas e, por causa da recessão, havia poucas alternativas de emprego. Os sindicatos de Rand tinham sido fundados por trabalhadores imigrantes britânicos especificamente para proteger os brancos da concorrência da mão de obra negra mais barata.
Inicialmente, o governo recusou-se a interferir, entendendo que a Câmara e a SAIF deveriam resolver a questão por conta própria.
Ainda assim, acompanhando as negociações nas minas de carvão, o governo advertiu a SAIF em dezembro de 1921 de que garantiria a continuidade dos serviços públicos essenciais durante uma greve. Isso se aplicava especialmente à Victoria Falls and Transvaal Power Company, principal fornecedora de eletricidade de Rand. Sem energia, os níveis subterrâneos mais profundos das minas de ouro seriam inundados, provocando danos duradouros. Como era de esperar, a SAIF sentiu que o governo estava do lado dos donos das minas.
Em 21 de dezembro de 1921, Patrick Duncan, ministro das Relações Exteriores, reuniu-se com a SAIF para discutir o conflito no carvão. A federação propôs arbitragem, sugestão que Duncan transmitiu à Câmara. Esta recusou, alegando a situação precária das minas carboníferas.
Convencida de que a Câmara pretendia forçar um confronto, a SAIF apoiou a greve dos mineiros de carvão, iniciada em 1º de janeiro de 1922. Naquele dia, todas as minas de carvão do Transvaal Oriental e do rio Vaal interromperam a produção.
Uma greve nas minas de ouro também parecia iminente depois que a Câmara informou à SAIF, em 28 de dezembro de 1921, que mantinha as três propostas.
No mesmo dia, a Victoria Falls Power and Transvaal Company (VFP) avisou à SAIF que novas negociações seriam inúteis, pois pretendia congelar os salários existentes.
Os sindicatos afetados formaram um Executivo Ampliado para coordenar a greve iminente. Os nove sindicatos nele representados apoiaram a paralisação das minas de ouro e da VFP: 12.192 trabalhadores votaram a favor e 1.336 contra, entre pouco mais de 20 mil trabalhadores brancos.
A greve começou em 10 de janeiro de 1922, interrompendo toda a mineração de ouro desde Springs, a leste, até Randfontein, a oeste. Ficaram ociosos 20 mil mineiros brancos e 180 mil negros. As usinas da Victoria Falls Power Company, que abasteciam as minas e os municípios — com exceção de Joanesburgo —, também pararam por algum tempo. De início, somente a usina de Rosherville, entre Joanesburgo e Germiston, recebeu autorização para funcionar em capacidade reduzida, fornecendo apenas a eletricidade necessária ao bombeamento subterrâneo e à iluminação. Joanesburgo, embora tivesse usina própria, continuava vulnerável porque seu carvão vinha de minas atingidas pela greve.
O governo esforçou-se para fazer Câmara e SAIF retomarem as negociações. Houve diversas reuniões e até uma longa conferência tripartite presidida pelo juiz Curlewis, de 14 a 27 de fevereiro. As reuniões confirmaram que o Acordo de Manutenção do Status Quo era o principal obstáculo à solução. Ao protestar contra sua modificação, os grevistas cunharam o estranho lema: “Trabalhadores do mundo, lutem e unam-se por uma África do Sul branca!” O slogan colocou os socialistas numa posição difícil. Embora não o apoiassem, hesitavam em repudiá-lo por medo de afastar os mineiros africâneres.
À medida que a greve se prolongava em fevereiro de 1922, o clima tornava-se ameaçador. Formaram-se comandos de grevistas, supostamente para manter a ordem, mas aparentemente mais preocupados em intimidar os fura-greves. O boato de que lojistas já não davam crédito aos grevistas provocou preocupação generalizada. Muitos dependiam de ajuda emergencial porque não possuíam poupança e a greve se prolongava. Grupos de grevistas também marcharam agressivamente até Crown Mines, advertindo os responsáveis das consequências caso continuassem a operar a mina.
Nessa época, surgiu um vazio de liderança entre o Executivo Ampliado e o Comitê Central dos Grevistas, responsável por coordenar todos os comitês locais. Isso permitiu que extremistas de uma organização militante, mas marginal, de mineiros — o Conselho de Ação — tentassem tomar a greve para seus próprios objetivos.
Entre os integrantes marxistas do Conselho de Ação estavam Percy Fisher, William Wordingham, Ernest Shaw, F. W. Pate, A. McDermid, D. McPhail e Henry Spendiff.
Numa reunião em Joanesburgo, em 7 de fevereiro, Fisher advertiu os grevistas contra encontros locais para discutir condições com os empregadores. Declarou que o primeiro homem a voltar ao trabalho deveria ser espancado até não lhe restar um sopro de vida.
No dia seguinte, para neutralizar a influência crescente do Conselho de Ação, a polícia prendeu Fisher, Spendiff, Shaw e Wordingham na sede sindical da Rissik Street, acusando-os de incitar violência pública. O magistrado recusou liberdade sob fiança e determinou que permanecessem presos.
O governo agravou a tensão ao anunciar, em 11 de fevereiro, que a polícia protegeria os grevistas que quisessem voltar ao trabalho. Em meados daquele mês, havia piquetes em cada poço de mina de Rand.
Libertados em 22 de fevereiro, os integrantes do Conselho de Ação imediatamente passaram a defender ações violentas. Em 24 de fevereiro, Shaw disse à multidão que todas as grandes mudanças políticas e sociais só haviam sido conquistadas pela militância.
O primeiro grupo de policiais especiais, conhecidos como “Blues”, entrou em serviço na segunda-feira, 27 de fevereiro. Essa força de cerca de setecentos homens armados e remunerados protegia as minas, liberando os policiais regulares para outras tarefas urgentes.
O primeiro confronto grave entre policiais e comandos grevistas ocorreu no mesmo dia. O capitão John Fulford, chefe da polícia distrital de East Rand, avistou cinquenta grevistas montados dos comandos de Boksburg e Driefontein Hill perto da mina Witwatersrand Deep, entre Germiston e Boksburg. Depois que os grevistas atrasaram um trem na passagem de nível de Angelo, os policiais os alcançaram e ordenaram que se dispersassem. Diante da recusa, houve uma briga que deixou três policiais e oito grevistas feridos. Mais de vinte grevistas foram presos e levados à prisão de Boksburg.
No dia seguinte, 28 de fevereiro, Fulford viu cerca de 250 grevistas marchando de Boksburg North à prisão de Boksburg, na Commissioner Street, supostamente para cantar The Red Flag aos companheiros detidos. Convencido de que pretendiam libertá-los, Fulford ordenou duas vezes que a multidão se dispersasse. Como não o fizeram, os policiais atiraram, matando três grevistas.
O cortejo fúnebre dessas vítimas, em Boksburg, em 2 de março, estendeu-se por três quilômetros. Nos Union Grounds de Joanesburgo, 5 mil pessoas ouviram solenemente o som melancólico do toque militar Last Post.
A greve chegava a um ponto de virada, abrindo caminho para o posterior colapso da lei e da ordem. Daquele momento em diante, os comandos grevistas passaram a atacar não apenas fura-greves, mas também grupos policiais.
Preocupado com a escalada de violência, o Executivo Ampliado escreveu à Câmara em 4 de março, propondo uma reunião urgente para discutir condições de encerramento da greve. Infelizmente, a Câmara respondeu no mesmo dia com uma carta extremamente indelicada.
Rejeitou o pedido e declarou que não reconheceria mais a SAIF para finalidade alguma, alegando que a federação já não representava a maioria dos empregados das indústrias do ouro e do carvão. Presumivelmente, a Câmara acreditava ter vantagem e que uma resposta dura encerraria rapidamente a greve. Infelizmente, apenas ajudou o Conselho de Ação a tomar o controle da paralisação e convertê-la numa revolta armada.
O Executivo Ampliado reuniu-se durante toda a noite para discutir a resposta. Na manhã seguinte, anunciou uma votação dos grevistas para decidir se a paralisação deveria continuar.
O Conselho de Ação, decidido a impedir essa votação, resolveu assumir a greve com apoio dos comandos armados. Criou imediatamente um Comitê de Ação para tomar decisões rápidas. Andrews, Fisher, Spendiff, Mason, Wordingham e Shaw, conhecidos pelas posições radicais, foram nomeados para o novo comitê. Seu plano imediato era impedir a votação e forçar uma greve geral em toda a região de Rand.
Em 5 de março, o Comitê Central dos Grevistas convocou uma reunião dos comitês distritais. Bill Andrews, representando o Conselho de Ação, argumentou eloquentemente contra a votação e defendeu o início da greve geral como único meio de derrotar os empregadores. As propostas logo foram aprovadas.
Em 6 de março, milhares de grevistas se concentraram na sede sindical da Rissik Street, onde delegados das direções sindicais discutiam a situação e a votação proposta. Os comandos grevistas se reuniram do lado de fora, enquanto o Comitê de Ação inflamava os ânimos. No fim da tarde, Joe Thompson, presidente interino da SAIF, anunciou a decisão de iniciar imediatamente uma greve geral, coordenada por um Conselho dos Cinco.
Pouco depois, o Conselho dos Cinco abdicou e entregou incondicionalmente sua autoridade ao Comitê de Ação.
Os comandos grevistas começaram a se armar. Relatórios policiais descreviam correntes de bicicleta, espadas velhas, baionetas, varas com pontas e diversos tipos de armas de fogo. Os grevistas também intensificaram as atividades, marchando por toda parte, recrutando mais trabalhadores e intimidando quem não participava da paralisação.
Da noite para o dia, a violência dos grevistas parecia ter se espalhado por toda a região de Rand.
Em 7 de março, grevistas impediram que ferroviários trabalhassem nas estações Braamfontein, Kazerne, Johannesburg, Germiston e outras. Quando policiais chegaram diante dos Novos Tribunais, na praça Von Brandis, para controlar uma multidão de milhares de pessoas, foram recebidos a pedradas e tiros. Mais tarde, grevistas foram vistos atacando africanos em Vrededorp. O tenente-coronel Godley, vice-comissário de polícia de Witwatersrand, acreditava que os ataques raciais tinham sido instigados pelo Conselho de Ação para constranger as autoridades e intimidar os cidadãos.
Na quarta-feira, 8 de março, a linha ferroviária perto de Driefontein, em East Rand, foi sabotada, e um trem e um encarregado de manutenção de via foram alvejados. À tarde, chegaram relatos de confrontos entre grevistas e africanos em Ferreirastown. Na mina Primrose também houve violência racial. Ficava claro que a polícia já não conseguia controlar a greve, que rapidamente se transformava em insurreição armada.
Por razões políticas, o governo hesitava em declarar lei marcial. Como precaução, pediu ao governador-geral que publicasse em 9 de março uma proclamação convocando diversas unidades da Força de Cidadãos Ativos (ACF): a Artilharia Montada do Transvaal, o Regimento Escocês do Transvaal, a Cavalaria Ligeira Imperial, o Regimento de Pretória, duas companhias do 1º Batalhão de Infantaria da Brigada de Ferrovias e Portos e a 1ª Ambulância de Campanha do Corpo Médico Sul-Africano.
No mesmo dia, a polícia recebeu informações alarmantes. Comandos grevistas planejavam atacar as delegacias de Newlands, Fordsburg e Auckland Park, além do acampamento da polícia especial em Cottesloe. Depois dos ataques, pretendiam marchar até a prefeitura e assumir o controle integral da cidade.
Três destacamentos policiais foram enviados ao sul da crista de Brixton, com vista para a estrada principal entre Brixton e Newlands. Um quarto ocupou uma elevação menor diante do hipódromo de Auckland Park. Embora cercados, conseguiram impedir que os vários comandos grevistas se unissem e marchassem sobre a cidade.
A crista de Brixton, uma longa cadeia curva de colinas baixas, estende-se a oeste da cidade e se achata ao sul. Controlá-la era essencial aos grevistas para repelir ataques vindos do norte ou nordeste contra seu reduto ocidental. Dali, também poderiam apoiar o avanço planejado pelos flancos esquerdo e direito.
Na sexta-feira, 10 de março de 1922, posteriormente chamada “Sexta-Feira Negra”, os combates se estenderam de Newlands a Springs, com exceção de Germiston e West Rand. Por algum tempo, pareceu que a revolta grevista seria vitoriosa.
Nas primeiras horas da manhã, comandos grevistas atacaram a delegacia de Newlands e, às 7h50, os policiais sitiados se renderam.
Em Fordsburg, foram atacados tanto o posto policial quanto o quartel situado a cerca de quatrocentos metros. O tenente McDonnel e nove homens resistiram no posto até aproximadamente 18 horas, quando a munição acabou. Fugiram então para o quartel próximo, onde os grevistas foram contidos até o fim da revolta. Um dos policiais em fuga recebeu ajuda do lojista Pieter Marais. No dia seguinte, Marais foi capturado pelos grevistas, julgado como espião da polícia, condenado à morte e sumariamente fuzilado junto a uma parede da própria loja. Antes de morrer, algumas horas depois, declarou que fora baleado por um grevista chamado Long.
Às 9 horas do mesmo dia, o governo finalmente declarou lei marcial em Rand e nos distritos vizinhos. Ao mesmo tempo, convocou outras unidades da ACF e 26 comandos de cidadãos. As unidades da ACF incluíam a Infantaria Ligeira de Durban, a Brigada de Ferrovias e Portos, com quartel-general e dois batalhões de infantaria, os Fuzileiros de Witwatersrand, a Infantaria Ligeira de Rand, duas unidades do Corpo de Serviços Sul-Africano e a 1ª Seção de Saneamento do Corpo Médico. Os comandos de cidadãos vieram do Transvaal Oriental e Ocidental e dos distritos militares de Pretória a Middelburg.
O general Beves recebeu o comando da região de Joanesburgo. Os generais J. van Deventer e Coen Brits conduziriam a ofensiva em East Rand, enquanto o coronel Hussey ficou encarregado de West Rand, onde felizmente a revolta já havia perdido quase toda a força.
Informado da lei marcial, um forte contingente policial surpreendeu e prendeu diversos delegados do Conselho de Ação na sede sindical. Entre os detidos estavam Bill Andrews, George Mason e Ernest Shaw, e foram apreendidos documentos comprometedores.
Os comandos grevistas logo revidaram. Enquanto a Força Aérea realizava missões a partir do aeródromo de Swartkops sobre Benoni e Brakpan, o capitão W. W. Carey-Thomas, observador num avião DH9 pilotado pelo tenente C. J. Venter, morreu atingido por tiros vindos do solo.
O comando grevista de Brakpan atacou uma pequena guarnição armada nos escritórios da mina Brakpan, matando o comandante da polícia especial, tenente Brodigan, três integrantes dessa força e quatro funcionários da mina.
Em Benoni, a polícia estava sitiada no quartel da Bedford Avenue. Um contingente de duzentos homens do Regimento Escocês do Transvaal seguiu num trem especial para socorrê-los. Na estação Vogelfontein, a polícia avisou que a linha havia sido adulterada em Avenue Halt. Quando o trem se aproximava lentamente da passagem de Dunswart, por volta das 14 horas, foram vistos quinze homens montados fugindo a galope. Quatro pelotões desembarcaram imediatamente para proteger o trem. Na passagem, foram atacados a tiros, e o restante do batalhão correu em auxílio. No confronto, morreram doze integrantes do Regimento Escocês do Transvaal e trinta ficaram feridos.
No sábado, 11 de março, o caos continuou. A delegacia de Langlaagte foi surpreendida e capturada; um policial morreu e dezoito foram feitos prisioneiros. As delegacias de Jeppe e Booysens foram sitiadas, mas resistiram.
Então a Cavalaria Ligeira Imperial (ILH) foi surpreendida desprevenida. Do Drill Hall, centro geral de mobilização, recrutas foram enviados à sede do regimento em Ellis Park, onde receberam equipamentos às pressas e foram organizados em esquadrões desmontados. A escolha de Ellis Park foi um erro grave, pois o acampamento exposto ficava num antigo campo de futebol cerca de seis metros abaixo das ruas ao redor. Às 13h30, aproximadamente 150 soldados estavam reunidos no gramado, com os fuzis empilhados a certa distância. De repente, sem aviso, os comandos grevistas de Jeppe e Denver, que haviam se aproximado despercebidos por trás de uma sebe alta no perímetro sudeste, abriram fogo. Outro grupo atirou contra o acampamento a partir de casas na Park Lane, acima do campo. Em instantes, a ILH sofreu oito mortos e quinze feridos.
No domingo, 12 de março, as forças governamentais finalmente estavam prontas para iniciar a ofensiva.
Às 6h30, em Benoni, uma força conjunta de militares e policiais comandada pelo tenente-coronel Burne reuniu-se ao 1º Regimento de Fuzileiros Montados Sul-Africanos e a duas unidades policiais, perto dos bairros indiano e africano. Ao avançar rumo ao centro, recebeu tiros intensos das instalações siderúrgicas Dunswart, onde havia uma grande força grevista. Usando seu único canhão, os militares desalojaram os grevistas, que recuaram para leste. Burne os perseguiu pela Main Reef Road, sofrendo perdas consideráveis por tiros disparados dos jardins à beira da estrada e dos telhados das casas próximas. Às 12h30, os socorristas já haviam atravessado Benoni; uma hora depois ocuparam a mina Brakpan. Avançaram então pela cidade sem oposição. Às 14h30, Brakpan estava nas mãos de Van Deventer e começou a operação de prender os grevistas. Para todos os efeitos práticos, a revolta em East Rand havia terminado.
Simultaneamente, uma força composta pela Infantaria Ligeira de Durban, Fuzileiros de Witwatersrand, Infantaria Ligeira de Rand, Cavalaria Ligeira Imperial, Regimento Escocês do Transvaal e Fuzileiros Montados Sul-Africanos avançou de Milner Park para oeste, em direção à crista de Brixton. Da esquina da Jan Smuts Avenue com a Empire Road, canhões de treze libras da Artilharia Montada do Transvaal bombardearam o setor nordeste da crista e a escola de Cottesloe, onde se concentrava uma grande força grevista.
Uma seção do Regimento Escocês do Transvaal avançou à esquerda, paralela ao limite norte do cemitério Braamfontein. Como o terreno oferecia pouca proteção, ficou exposta a fogo concentrado mortal. Alvejado da crista, da escola Milner Park Junior e de uma casa de campo deteriorada perto do canto noroeste do cemitério, o regimento rapidamente perdeu três homens mortos e 29 feridos.
Duas companhias da Infantaria Ligeira de Durban, aproximando-se pelo Johannesburg Country Club, renderam os policiais na crista sem sofrer baixas. Os comandos grevistas, desmoralizados pelo avanço das tropas, pelo bombardeio da artilharia e pelas bombas lançadas pelos aviões, renderam-se ou fugiram. Cerca de 1.700 prisioneiros foram capturados e enviados a cercados provisórios mais abaixo. As vítimas dos dois lados foram sepultadas temporariamente em Milner Park.
Após o avanço vitorioso, o tenente-coronel Thackeray instalou o quartel-general no Johannesburg Country Club, preparando o ataque ao reduto grevista da praça de mercado de Fordsburg.
Pouco depois do amanhecer de terça-feira, 14 de março, um avião militar lançou milhares de panfletos sobre Fordsburg, advertindo os civis pacíficos para que deixassem a área pelo túnel de Fordsburg antes das 11 horas. Dali seriam levados a um acampamento de emergência em Milner Park.
O ataque estava prestes a começar quando um emissário do quartel-general grevista chegou ao general Beves pedindo condições de rendição. Foi informado de que só seria aceita a rendição incondicional.
O ataque foi planejado para partir do norte, nordeste e leste.
Às 11 horas, um canhão de campanha da Artilharia Montada do Transvaal começou a disparar da Sauer Street. Seu observador estava no telhado do edifício Corner House. As outras duas peças de artilharia disparavam da crista de Brixton, pouco acima do acampamento de Auckland Park. Durante setenta minutos, quase 140 projéteis de estilhaços caíram sobre Fordsburg, até que foi dada ordem de cessar fogo, por receio de ferir os policiais mantidos como reféns no prédio da praça.
A Infantaria Ligeira de Durban, que havia acampado em Brixton, avançou sobre Fordsburg pelo norte, enquanto o Regimento Escocês do Transvaal se aproximava pelo nordeste. O flanco esquerdo desse regimento se uniu à força do tenente-coronel Godley, que atacava pelo sudeste e pelo sul. Essa força, composta de policiais regulares e especiais, possuía também um tanque Whippet, que acabou quebrando no túnel de Fordsburg. Mesmo assim, sua aparição causou grande nervosismo entre os grevistas.
Por volta das 12h30, unidades da Infantaria Ligeira de Durban e do Regimento Escocês do Transvaal, tendo tomado a estação ferroviária de Fordsburg, avançavam para a praça a leste da estação. Ao se aproximarem, enfrentaram forte fogo de fuzis atrás de barricadas nas principais ruas que corriam de oeste para leste. O major Adams e o tenente Gregorowski, do Regimento Escocês do Transvaal, morreram na Main Road, hoje Albertina Sisulu Street.
Mudando de tática, os homens da Infantaria Ligeira de Durban infiltraram-se pelas propriedades particulares vizinhas e entraram numa loja de bebidas com janelas de vidro fosco diretamente diante da praça. Instalaram às escondidas uma metralhadora Vickers no estabelecimento e começaram a atirar à queima-roupa contra os grevistas surpreendidos. Uma carga maciça de baionetas tomou então a praça. Dentro do prédio do mercado, encontraram os corpos de Fisher e de seu auxiliar Spendiff, ambos aparentemente suicidas. Ali também estavam policiais mantidos como reféns depois da rendição da delegacia de Langlaagte.
Às 14 horas, a praça estava segura. Embora ainda houvesse atiradores isolados, a revolta terminara. Os grevistas capturados foram conduzidos ao antigo campo de Wanderers, ao lado da estação ferroviária de Joanesburgo. Ali, milhares de detidos passaram por triagem, sendo formalmente acusados e presos ou libertados.
Nos dois dias seguintes, unidades da ACF vasculharam minuciosamente Fordsburg, Brixton, Vrededorp, Turffontein e Rosettenville em busca de revolucionários e armas.
Em 16 de março, ocorreram episódios lamentáveis que prejudicaram a imagem do Regimento Escocês do Transvaal e do governo. W. E. Dowse, membro do comitê grevista de Rosettenville, foi preso em casa sob acusação de importunar a sra. Adams, esposa de um fura-greve. Enquanto era levado ao quartel-general de uma companhia do regimento, teria tentado fugir e foi morto a tiros por dois soldados.
Depois, os três irmãos Hanekom e M. W. Smith foram presos pelo Regimento Escocês do Transvaal, acusados de cortar fios telefônicos — ato que admitiram, mas alegaram ter sido obrigados pelos grevistas — e de esconder armas e munição, acusação que negaram. Foram levados a um vale isolado ao sul de Rosettenville, perto da leiteria Fouche, para apontar possíveis esconderijos de armas. Os quatro foram mortos ali, também sob alegação de tentativa de fuga. Persiste a suspeita de que o episódio tenha sido uma retaliação às baixas sofridas em Dunswart e na crista de Brixton, embora a comissão de investigação posterior tenha inocentado o regimento.
À meia-noite de 17 de março de 1922, a SAIF encerrou a greve. Os trabalhadores se apresentaram ansiosamente, esperando descobrir que seus empregos tinham sido mantidos. Muitos tiveram a volta recusada por causa das atividades durante a revolta. Quase 3 mil mineiros ficaram desempregados após uma revisão da força de trabalho das minas e a recusa dos empregadores em readmitir grevistas militantes. Mesmo os que conservaram o emprego passaram a receber menos. De muitas maneiras, foi um fim triste para uma greve que começara com tanta arrogância.
Percebendo que a legislação em vigor era incapaz de conciliar efetivamente conflitos trabalhistas, o governo promulgou a Lei de Conciliação Industrial pouco antes de ser derrotado nas eleições gerais de 1924.
Durante a campanha, a oposição explorou politicamente a alegação de que as mãos de Smuts estavam manchadas de sangue, em razão da repressão violenta à greve, do massacre de Bulhoek contra fanáticos religiosos em Queenstown e da repressão igualmente violenta à Rebelião dos Bondelswarts no então Sudoeste Africano.
Os mineiros, profundamente ressentidos com a condução governamental da greve, votaram no Partido Nacional de Barry Hertzog ou no Partido Trabalhista do coronel Creswell, que haviam firmado um pacto eleitoral. O Partido Nacional conquistou 63 cadeiras, dezoito a mais que antes; o Trabalhista passou de nove para dezoito; e o Partido Sul-Africano obteve apenas 53.
O governo de coalizão resultante criou o Departamento do Trabalho em agosto de 1924 para aplicar as disposições da Lei de Conciliação Industrial. Também promulgou a Lei de Minas e Obras nº 25, de 1926, reforçando a barreira racial nas minas. Infelizmente para as relações raciais futuras, essa legislação permaneceu em vigor durante décadas.
S. J. De Klerk ocupou muitos cargos de chefia em recursos humanos durante uma carreira de destaque no setor privado. Desde a aposentadoria, dedica tempo e recursos a pesquisar, explorar e escrever sobre a história da África do Sul.