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Dossiê · engenharia e memória industrial

A mina de ouro de Lion’s Head que fracassou após os ensaios de 1887

A história da mina experimental de Lion’s Head, na Cidade do Cabo, de 1886 a 1888: poços, amostras lacradas e captação fracassada.

Este estudo apresenta um episódio pouco conhecido da história da mineração na Cidade do Cabo e na África do Sul. O professor Peter Spargo acompanha o surgimento e o fracasso de um empreendimento aurífero nas encostas de Lion’s Head. O artigo original foi publicado na edição de junho de 2015 do Bulletin of the National Library of South Africa.

A notícia surpreendente de setembro de 1886

A descoberta do veio principal de Witwatersrand, em março de 1886, pelo prospector australiano George Harrison não foi inteiramente surpreendente: depósitos promissores já haviam sido encontrados no Transvaal.

Apesar disso, mesmo em meio à “mania do ouro” que, segundo Andrew Geddes Bain, tomava conta da Colônia, os leitores do Cape Times de quinta-feira, 9 de setembro de 1886, devem ter ficado espantados com uma carta assinada por alguém que se identificava como “Esperançoso”.

Sob o título chamativo “O campo de ouro mais recente”, a carta anunciava:

Há um sujeito enérgico trabalhando numa concessão de mineração na colina abaixo de Lion’s Head e [...] ele obteve ouro em pequenas quantidades, uma amostra das quais eu próprio vi.

Provavelmente nunca saberemos com precisão quando e por quem o ouro foi descoberto em Lion’s Head. Um relatório datado de 4 de maio de 1887, escrito por P. D. Hahn, professor de química do South African College, que mais tarde se tornaria a Universidade da Cidade do Cabo, ajuda a contextualizar a notícia de 1886:

Em agosto de 1886, algumas pessoas interessadas na busca de ouro formaram um sindicato para prospectar na colina Lion’s Hill e obtiveram permissão do honorável J. H. Hofmeyr, membro do Conselho Legislativo, para explorar sua fazenda na Kloof Road, nas encostas de Lion’s Head.

Entretanto, outra referência ao sindicato, publicada apenas pouco mais de dois meses depois, dizia que seus integrantes exploravam a fazenda havia dezoito meses. Isso apontaria para maio de 1886 como possível início das prospecções mais sérias.

O primeiro poço parecia promissor

Duas semanas depois da carta do Cape Times, surgiu uma notícia sensacional sob o título “A febre do ouro”:

Na encosta de Lion’s Head está sendo aberto um poço e, no quartzo, são vistos alguns pontos que dizem ser ouro.

O mesmo texto terminava com uma ressalva importante: ainda não havia análise científica daquele quartzo.

Em 29 de novembro de 1886, informava-se que o poço atingira aproximadamente sessenta pés de profundidade. Os exploradores, tão satisfeitos com os indícios, haviam comprado de Hofmeyr a parte da fazenda onde trabalhavam.

O quartzo extraído era descrito como denso e duro, com numerosos grãos de pirita considerados auríferos, mas o jornal lembrava que ainda não ouvira falar de qualquer ensaio que comprovasse a presença de ouro.

Quatro dias depois veio um anúncio surpreendente: além de comprar cinquenta acres nas encostas para a mina, o grupo estava tão confiante que enviaria um representante à Inglaterra para tentar constituir uma companhia.

Os nomes desses empresários não foram divulgados, assim como não sabemos o resultado da viagem. Uma semana mais tarde, porém, outra reportagem informou que uma amostra de minério fora enviada à firma Savory & Co., de Londres, e que a análise dera resultados positivos.

O campo aurífero de Lion’s Hill ainda poderá recompensar a iniciativa dos prospectores diligentes. Uma caixa de quartzo, retirada a apenas um ou dois pés da superfície, foi recentemente enviada à Savory & Co., de Londres, para análise. O relatório recebido pelo último correio apresenta o resultado:

O ensaio indicava ouro fino de dois pennyweights e doze grãos por tonelada, além de prata fina de sete pennyweights e doze grãos por tonelada, equivalentes aproximadamente a 4,28 e 11,64 gramas por tonelada, respectivamente.

Pennyweight e grão eram unidades tradicionais da escala troy. Um pennyweight equivale a 24 grãos, ou aproximadamente 1,55 grama; um grão corresponde a cerca de 0,065 grama.

Logo surgiu mais uma notícia animadora: o sindicato teria finalmente encontrado rocha contendo ouro visível ao microscópio. A firma de químicos De Vries & Co., da esquina das ruas Grave e Longmarket, possuía amostras de diferentes profundidades; as mais profundas eram pesadas e pareciam conter bastante metal.

O mesmo artigo, porém, advertia que a quantidade de rocha analisada era pequena demais para permitir estimativas quantitativas confiáveis. Servia apenas para confirmar a presença de ouro e prata. O poço havia alcançado noventa pés e, segundo os prospectores, a rocha tornava-se mais pesada à medida que a escavação avançava.

Como acontece em muitos empreendimentos mineiros, rumores se espalhavam. Dizia-se que o sindicato pretendia criar em Londres uma empresa com capital fabuloso para comprar e explorar a mina. Os proprietários negavam a história, alegando que preferiam trabalhar a jazida por conta própria se os ensaios fossem favoráveis.

A amostra de minério lacrada diante de um comissário

Talvez desejando convencer um público crítico — e, sobretudo, investidores futuros — da legitimidade da mina, o sindicato organizou uma ação de divulgação cuidadosamente planejada.

Uma grande amostra seria retirada e lacrada na presença de Frederick X. Schermbrucker, comissário das Terras da Coroa e Obras Públicas, importante autoridade da administração colonial do Cabo.

Os jornais Cape Times e Cape Argus publicaram descrições extensas do acontecimento, que provavelmente foi único na história industrial da Cidade do Cabo.

“O poço de Lion’s Head: um teste oficialmente garantido”

No sábado à tarde, um grupo de cavalheiros, amigos dos integrantes do sindicato que vinha realizando prospecções em Lion’s Head, deixou a cidade acompanhado pela maioria dos prospectores. A intenção era inspecionar os trabalhos e assistir à detonação de uma quantidade de rocha que seria acondicionada e lacrada na presença do comissário das Terras da Coroa e Obras Públicas.

A estrada conduz à fazenda adquirida pelo sindicato poucos dias antes. Um impressionante monte de entulho acumulado na ravina das escavações, retirado do poço, consiste em milhares de cargas de folhelho.

Os trabalhos incluem uma galeria de cerca de oito pés de altura, dez de largura e vinte de profundidade, aberta na encosta. Poucos pés depois da entrada da galeria fica a boca do poço, operado por um guincho manual comum, que atualmente chega a quase noventa pés de profundidade.

A escavação acompanha o veio, cuja largura aumenta gradualmente de alguns centímetros na abertura até cerca de cinco pés no fundo do poço. Foram abertas duas galerias em diferentes níveis do poço principal, mas o sindicato pretende continuar aprofundando-o, pois a rocha se torna mais pesada.

Por volta das três horas, chegaram o comissário das Terras da Coroa e seu grupo. Schermbrucker declarou que desceria ao poço antes da detonação para verificar, pessoalmente e em nome do público, que tudo estava sendo conduzido com absoluta correção.

Depois de tirar o casaco e o chapéu branco, colocou corajosamente um pé no balde de içamento, agarrou a corda e ordenou que o baixassem.

Após quinze minutos examinando as galerias subterrâneas, o comissário viu amostras de rocha dos diferentes níveis do veio e declarou-se satisfeito com seu aspecto.

Duas cargas, cada uma com quatro cartuchos de dinamite, foram detonadas ao pé do poço. O solo tremeu levemente sob os pés dos visitantes, até que o capataz anunciou que os gases da dinamite haviam se dispersado e que o comissário podia descer com segurança.

Schermbrucker desceu novamente e informou que as explosões haviam deslocado grande quantidade de rocha. Um saco foi preso a uma balança de mola, e o comissário acompanhou atentamente o enchimento.

Depois de receber 210 libras de minério, o saco foi amarrado com firmeza e recebeu o selo oficial do comissário.

Ele declarou que tudo o que era possível havia sido feito para evitar qualquer dúvida pública sobre a autenticidade do teste. Inspecionara o terreno antes e depois das explosões e observara o enchimento do saco que seria enviado aos analistas na Inglaterra.

Enviaria de seu escritório uma impressão duplicada do selo, para que pudessem perceber facilmente qualquer violação.

O saco lacrado, junto com outros contendo rocha suficiente para totalizar uma tonelada, seria enviado na quarta-feira seguinte à Savory & Sons, de Lombard Street, Londres, analistas do Banco da Inglaterra.

O resultado era esperado em nove ou dez semanas. Calculava-se que meia onça de ouro por tonelada proporcionaria bom lucro; se, como indicava a primeira análise, o minério também contivesse uma proporção maior de prata, até um teor de ouro menor poderia ser rentável.

O futuro do sindicato de Lion’s Head dependeria do resultado daquele saco de minério. Até então, não se pedira nada ao público, nem isso seria feito antes de demonstrar, de maneira incontestável, a existência de ouro economicamente explorável na rocha de Lion’s Head.

Ensaios contraditórios alimentam as suspeitas

Após um primeiro relatório cauteloso, seis semanas depois veio o anúncio de um telegrama informando que o minério enviado à Inglaterra apresentara apenas 22 grãos de ouro por tonelada.

Isso confirmava algum teor aurífero, mas o resultado era muito menor que os dois divulgados em janeiro. As análises anteriores haviam sido aproximadamente três e oito vezes superiores.

Uma carta ao Cape Times, assinada “Caveat Speculator” (“Cuidado, especulador!”), relatou uma acusação difícil de acreditar: um trabalhador das docas teria dito que as amostras eram enviadas para análise no exterior “para fazer as ações subirem um pouco por aqui”.

As análises do professor P. D. Hahn

Boas notícias surgiram quando P. D. Hahn, respeitado professor de química do South African College, analisou cem libras de quartzo supostamente retiradas do veio principal e obteve mais de duas onças de ouro por tonelada. Seu relatório tinha data de 7 de junho, mas só foi publicado no dia 27.

No dia seguinte, foram divulgados os nomes dos dez integrantes do Sindicato de Lion’s Head: A. P. de Villiers, J. S. le Sueur, J. Mills, L. Lazarus, C. W. Barnes, B. A. de Vries Jr., M. C. de Vries, C. J. Olley, L. Warshawsky e D. Fock.

É revelador que poucos dos principais empresários do Cabo apareçam na lista. Talvez a elite financeira local confiasse menos no empreendimento de Lion’s Head do que nas minas em rápida expansão de Witwatersrand, para as quais direcionava grande parte de seus investimentos.

Ainda assim, após visitar a mina em 11 de junho, o procurador-geral Sir Thomas Upington e três membros da Assembleia Legislativa declararam-se satisfeitos. O primeiro-ministro Sir Gordon Sprigg pretendia acompanhá-los, mas foi retido na cidade por compromissos urgentes.

Menos de uma semana depois, um anúncio importante pareceu confirmar as perspectivas:

O Sindicato de Mineração de Ouro de Lion’s Head decidiu transformar o empreendimento numa sociedade de responsabilidade limitada, em consequência do relatório altamente satisfatório do dr. Hahn, que inspecionou pessoalmente a mina e selecionou livremente amostras de quartzo. As análises mostraram rendimentos variando entre catorze pennyweights e duas onças por tonelada.

Uma semana mais tarde, foi publicada uma carta de 4 de maio de Hahn a L. Warshawsky, provavelmente o principal integrante do sindicato.

Depois de lavar e amalgamar com mercúrio oitenta libras da amostra, foram recuperados trinta grãos e meio de ouro. Isso equivalia a duas onças, um pennyweight e seis grãos e meio por tonelada de duas mil libras. Quase vinte libras adicionais passaram por um ensaio preliminar, com resultado semelhante.

Hahn enviou então uma segunda carta, desta vez a B. A. de Vries, farmacêutico local e participante ativo do sindicato, descrevendo a análise de sete amostras de quartzo de “diferentes veios”, recolhidas durante sua visita de 25 de maio.

Duas amostras vieram da superfície; outras da entrada, do meio e de uma região próxima ao fundo; as duas últimas foram retiradas do veio principal, a 140 pés.

O poço parecia seguir a zona de contato entre ardósia argilosa e granito, onde havia pirita de ferro em numerosos veios de quartzo, alguns expostos na superfície.

Uma amostra superficial não continha ouro; outras duas, próximas da superfície, eram nitidamente auríferas; as duas seguintes tinham uma quantidade considerável. As duas mais profundas apresentavam respectivamente treze pennyweights e onze grãos e catorze pennyweights e dezesseis grãos por tonelada.

A necessidade de cloração pelo processo Cassel

Hahn alertou que o minério exigiria a extração do ouro pelo processo Cassel, que utilizava cloração e era mais complicado que a simples amalgamação com mercúrio.

A cloração permitiria liberar partículas de ouro envolvidas em sulfeto de ferro, oferecendo resultados mais fiéis. Apesar da advertência, concluiu em tom otimista:

Sou da opinião de que a zona de contato entre granito e ardósia, de Sea Point ao colo entre Devil’s Peak e Table Mountain, é aurífera, e que se encontrará ouro em toda essa faixa.

Muitos leitores continuaram desconfiados. Em julho, as páginas do Cape Times e do Cape Argus receberam cartas, algumas bastante agressivas, questionando o mérito da mina e a integridade do sindicato.

Hahn e C. J. Olley, secretário honorário do grupo, responderam de maneira confiante. Em 8 de julho, Hahn chegou a afirmar — incorretamente — que os veios de Lion’s Head eram, em conjunto, mais ricos que qualquer jazida até então descoberta em Knysna.

Ele insistia que retirara pessoalmente as amostras e vira quantidades consideráveis de ouro livre em alguns veios de quartzo que atravessavam a ardósia metamorfizada.

Em 21 de julho, anunciou-se que várias toneladas de quartzo haviam sido enviadas à Inglaterra para ensaios mais completos. Outras cargas seguiriam à medida que o material fosse detonado, até completar vinte toneladas. A iniciativa contava com o deputado L. Wiener e outros comerciantes influentes.

Uma companhia de 20 mil libras e 40 mil ações

O sindicato queria desenvolver a mina, mas precisava urgentemente de capital, já que os trabalhos haviam sido financiados pelos próprios integrantes.

Em 19 de novembro de 1887, o Cape Times publicou o extenso prospecto da Lion’s Head Cape Town Gold Mining Co., repetido cerca de dez vezes nas duas semanas seguintes.

A companhia seria registrada sob a lei de responsabilidade limitada, com capital de vinte mil libras dividido em quarenta mil ações de dez xelins cada.

Quatorze mil ações seriam oferecidas ao público, mediante depósito inicial de um xelim por ação. O anúncio de 23 de novembro incluía um diagrama mostrando a extensão das escavações já executadas pelo sindicato.

Um detalhe notável era a destinação de dez mil ações integralizadas de dez xelins aos vendedores — isto é, aos membros do sindicato — em troca dos direitos de mineração e instalações.

Para demonstrar boa-fé, concordavam em não negociá-las durante doze meses, a menos que fosse distribuído dividendo antes desse prazo.

O prospecto citava um ensaio de duas onças e dezenove pennyweights por tonelada de minério moído no moinho Wilkinson, na Kloof Street.

Mas a mesma edição do Argus publicava uma carta do corretor S. Twycross com notícia decepcionante: as cinco toneladas enviadas à Inglaterra em julho para análise pelo método de cloração não haviam sido submetidas a esse processo.

Em vez disso, realizara-se um ensaio comum de amalgamação com mercúrio sobre algumas libras, produzindo apenas quatro pennyweights por tonelada.

Faltava, portanto, uma análise confiável capaz de fundamentar a viabilidade futura da mina — exatamente aquilo de que o sindicato dependia.

Alguns dias depois, uma nota editorial do Argus desejou sucesso ao projeto, mas observou cautelosamente que ainda estava por determinar se a quantidade de ouro seria suficiente para remunerar a lavra. O jornal também questionava as condições de distribuição e manutenção das ações.

Vieram novas cartas, em grande parte críticas aos planos e ao futuro da mina. C. J. Olley e S. Twycross responderam de modo conciliador. Um correspondente citou a opinião de Thomas Bain de que “o quartzo mais rico ainda não fora alcançado”.

Noticiou-se ainda a irritação do deão da Cidade do Cabo diante de moradores que investiam na “mania das ações de ouro” de Barberton e Joanesburgo em vez de apoiar a mina local, mais próxima e potencialmente benéfica à região.

O fracasso da oferta de ações

A recepção foi extremamente fria. Em 13 de dezembro, menos de três semanas depois do primeiro anúncio, a companhia informou:

Com o consentimento dos vendedores, a empresa decidiu modificar o prospecto, porque não foram solicitadas ações em número suficiente. O prospecto alterado será publicado dentro de um ou dois dias.

Era um golpe duríssimo. Sem novo aporte de recursos, a exploração não poderia continuar. Não existe evidência de que o prometido prospecto revisado tenha sido publicado ou sequer mencionado novamente pela imprensa local.

No dia seguinte, a coluna satírica “Saturday Sallies”, depois de classificar o empreendimento como uma tentativa de tirar dinheiro dos bolsos do público, comentou uma reunião na qual se decidira enviar minério a Freibourg, na Alemanha, para tratamento. Dizia-se que materiais semelhantes podiam ser lucrativos ali com pouco mais de um pennyweight de ouro por tonelada.

O encerramento em janeiro de 1888

Os planos não deram resultado. Em 14 de janeiro de 1888, a companhia publicou seu último aviso:

Como a subscrição das ações não foi completada e a emissão do prospecto corrigido foi adiada, os depósitos efetuados para a compra de ações serão devolvidos mediante solicitação à Twycross & Co., corretores.

O empreendimento fracassara.

Depois disso, devem ter ocorrido os procedimentos habituais de encerramento de uma mina: se ainda houvesse recursos, os empregados seriam pagos; o guincho, os equipamentos de perfuração e as ferramentas seriam vendidos, praticamente a preço de sucata; e a instalação seria abandonada.

É triste que nenhuma das muitas reportagens sobre a mina tenha mencionado os trabalhadores. Permaneceram anônimos e sem descrição até o fim.

Não sabemos quantos eram, de onde vieram, quanto recebiam, como eram alimentados, onde moravam ou se alguém morreu ou se feriu nas operações.

Como a companhia nunca fora formalmente registrada sob a Lei de Responsabilidade Limitada — e os sindicatos não precisavam fazê-lo —, a liquidação envolveu poucas formalidades legais.

Os arquivos do Cabo Ocidental contêm apenas um documento menor relacionado à mina, uma garantia hipotecária de 950 libras; o catálogo da Biblioteca Nacional da África do Sul nada registra. Surpreendentemente, não se conhecem fotografias da instalação.

Para adaptar a famosa frase de T. S. Eliot, a mina terminou não com uma explosão, mas com um gemido.

O poço esquecido permaneceu perigoso até 1951

Embora aparentemente inativo, o sindicato continuou existindo por algum tempo depois do fechamento. Em 1892, vendeu a fazenda comprada cinco anos antes com tantas esperanças.

No ano anterior, a Comissão de Obras Públicas do Conselho Municipal da Cidade do Cabo decidira que o poço aberto de Lion’s Head era perigoso e ordenara ao “Sindicato do Ouro” que o aterrasse, sob ameaça de processo judicial.

Nada foi feito. O poço só foi definitivamente preenchido em 1951, depois que um bombeiro quase caiu nele.

Hoje restam apenas uma depressão no local onde o material de aterro continua se acomodando, alguns terraços e muros baixos de pedra, montes de estéril cobertos de fynbos e a inscrição “Old Gold Mine” no mapa de Table Mountain de Peter Slingsby, na escala 1:20.000.

Por que a mina fracassou?

Havia mesmo ouro em Lion’s Head? Os ensaios, embora confusos, confirmaram a existência de quartzo aurífero à medida que o poço avançava.

Isso não surpreende: sabe-se que o ouro ocorre em vários pontos do quartzo na interface entre o granito e os folhelhos do Grupo Malmesbury, como naquele lugar.

Infelizmente, a concentração desse ouro costuma ser irregular e imprevisível. Os ensaios mal conduzidos pelo sindicato tampouco ajudaram a convencer investidores sobre a viabilidade do empreendimento.

Por fim, o grupo buscava capital local precisamente quando se lançavam numerosas minas de ouro extremamente atraentes em Witwatersrand.

Grandes somas saíam do Cabo rumo ao norte, restringindo os recursos disponíveis para um projeto local. Segundo estimativa de Mabin, entre 1886 e 1889 moradores do Cabo investiram aproximadamente seis milhões de libras nas minas auríferas do Transvaal.

Isso ajuda a explicar a fraca procura pelas ações. Consideradas a incerteza geológica e a competição por investimentos, o fracasso era quase previsível.

É triste sob alguns aspectos, mas quem realmente desejaria uma mina grande e ativa numa das regiões mais bonitas do mundo?

A quase esquecida mina de Sea Point

Nenhum relato sobre a mineração em Lion’s Head estaria completo sem mencionar outro empreendimento contemporâneo, pequeno e quase totalmente esquecido, em Lion’s Rump, nas encostas de Signal Hill com vista para Table Bay.

Em algum momento de 1887, Frederick Phillips recebeu licença para prospectar no “lado de Sea Point de Lion’s Rump e do colo”.

Seu trabalho, ou o de outros garimpeiros, deve ter produzido resultados animadores, pois foi formado um sindicato.

Em 5 de março de 1887, o Cape Argus noticiou:

O Sindicato de Mineração de Ouro de Sea Point, que vem trabalhando discretamente há algum tempo, acredita ter encontrado o veio em seu lado de Lion’s Head. Um pouco de quartzo foi britado e lavado ontem à tarde.

As operações parecem ter sido executadas com alguma intensidade. Um relatório de 1888 escrito por J. Le Sueur, também integrante do sindicato de Lion’s Head, descreveu uma galeria horizontal de 56 pés, aberta em Lion’s Rump a 800 pés acima do nível do mar.

Ao mesmo tempo, foi escavado um poço vertical de trinta pés, situado aproximadamente 150 pés abaixo da galeria e um pouco a leste.

Os trabalhos foram suspensos enquanto se aguardavam as análises de minério de Lion’s Head. Quando os resultados desapontaram, não foram retomados.

Não foram encontrados outros detalhes da mina de Sea Point. A galeria horizontal, de cerca de dois metros por dois metros de seção e vinte metros de comprimento, ainda é acessível acima de Sea Point. O poço vertical não foi localizado e provavelmente está oculto pela vegetação densa.

Peter Spargo, 2015. O estudo original foi publicado no Bulletin of the National Library of South Africa, volume 69(1), junho de 2015, páginas 28–40.

Referências documentais principais: A. P. Cartwright, The Gold Miners, 1962; A. G. Bain, estudo geológico de 1857; reportagens do Cape Times e do Cape Argus de 1886 a 1888; relatórios coloniais sobre mineração de 1887; hipoteca do Sindicato Lion’s Head conservada nos arquivos do Cabo Ocidental; Douglas Hey, The Mountain, 1994; Fiona McIntosh e Shaen Adey, Table Mountain Activity Guide, 2004; Jose Burman, The Cape of Good Intent, 1969; e Alan Mabin, estudo de 1987 sobre o subdesenvolvimento do Cabo Ocidental.

Notas e referências documentais

2 A. G. Bain, ‘Geology of South Africa’, Eastern Province Magazine, vol. I, No. 8, April 1857, pp. 396-507.

3 Cape Times, 9 September 1886.

6 Cape Times, 23 November 1887, p. 2/2-3.

7 Cape Times, Saturday 25 September 1886, p. 3/7.

8 Cape Times, Monday 29 November 1886, p. 3/3.

9 Cape Times, 1 December 1886, p. 3/2.

11 Cape Times, Saturday 8 January 1887, p. 2/9. 12 Cape Argus, Thursday 20 January 1887, p. 3/5.

13 Cape Argus, Monday 24 January 1887, p. 3/1; repeated in the Cape Argus, Weekly Edition, Friday 28 January 1887, p. 2/6.

14 Cape Times, 17 February 1887, p. 3/1.

15 Cape Argus, Wednesday 30 March 1887, p. 3/5.

16 Cape Times, Saturday 8 January 1887, p. 2/9.

17 Cape Times, Thursday 5 May 1887, p. 3/8.

18 Cape Times, Friday 6 May 1887, p. 2/9.

19 Cape Argus, Monday 27 June 1887, p. 3/4.

20 Cape Argus 7 May 1888.

21 Cape Times, Monday 13 June 1887, p. 3/3.

22 Cape Times, Saturday 18 June 1887, p. 2/8.

23 Cape Argus, Monday 27 June, 1887, pp. 3-4.

24 Cape Argus, Friday 8 July, 1887, p. 2/3.

25 Cape Argus, Thursday 21 July 1887, p. 5/7.

26 Cape Times, Saturday 19 November, 1887, p. 2/2-3.

27 Cape Argus, Wednesday 23 November 1887, p. 3/3.

28 Cape Argus, Wednesday 23 November 1887, p. 3/2.

29 Cape Argus, Monday 28 November, 1887, p. 2/67.

30 Cape Times, Saturday, 3 December 1887, p. 3/6.

31 Cape Argus, Monday 5 December, p. 3/2.

32 Cape Argus, Tuesday 13 December 1887, p. 2/4-5. (Repeated on 16 and 19 December.)

33 Cape Argus, Saturday 14 January 1888, p. 3/2.

34 Cape Times,14 January 1888, p. 2/1.

35 Western Cape Archives: “Mortgage Bond. Trustees of Lion’s Head Gold Syndicate, Cape Town”; 23 May 1887; DOC Vol. 4/1/211; Ref. 140; “Mortgages”, Vol. 18; 14-1 May 1887; £950.

36 Douglas Hey, The Mountain (Cape Town, Tafelberg, 1994), p. 22. 37 Fiona McIntosh and Shaen Adey, Table Mountain Activity Guide (Cape Town: Struik, 2004), p. 141.

38 Jose Burman, The Cape of Good Intent, (Cape Town: Human & Rousseau, 1969), pp. 77-78)

39 Alan Mabin, “The underdevelopment of the Western Cape, 1850-1900”; in Wilmot G James and Mary Simons (eds.), The Angry Divide, (Cape Town: David Philip, 1987), p. 92.

40 Ref. 5, p. 10.

41 Cape Argus, Saturday 5 March 1887, p. 3/1.

42 Ref. 5, p. 15.