No Dia do Patrimônio de 2026, o forno da Idade do Ferro que Revil Mason escavou em Melville Koppies em 1963 passou a integrar uma exposição permanente no Museum Africa, em Newtown. O equipamento foi reconstruído em realidade aumentada pela Unidade de Pesquisa em Metaverso da Universidade de Joanesburgo. Aubrey Moloto, voluntário de Koppies, integrante do comitê e fundador da Snaps On Seventh, empresa responsável pelo boletim Melville Untold, conta a história do forno, do lançamento e das pessoas que mantiveram o local preservado durante seis décadas. Uma versão mais curta deste relato apareceu no Melville Untold em 25 de setembro de 2026.
O achado de Revil Mason
Em 1948, o jovem Revil Mason encontrou um machado de mão da Idade da Pedra em Melville Koppies, que ainda servia de pastagem, e o entregou ao comitê local. Quinze anos depois, o comitê pediu que voltasse para procurar outros vestígios.
Fui até lá e encontrei o forno pré-histórico. A parte superior mal aparecia, formando um anel. Muitos visitantes haviam passado por cima sem perceber que ele estava ali.
Foi assim que Mason descreveu a descoberta à jornalista Lucille Davie. A datação por carbono situou o uso do forno entre os anos 1060 e 1580. Seus construtores eram trabalhadores do ferro sotho-tswana, que cultivavam a terra e produziam metal naquela elevação séculos antes da corrida do ouro de 1886.
A escavação de Mason levou à declaração de Melville Koppies como monumento nacional em 1963. O forno permaneceu no local em que foi encontrado, protegido por uma cobertura de vidro em Koppies Central e cuidado desde então pelos Amigos de Melville Koppies.
Durante trinta anos, passei ao lado dele
Eu fui um daqueles visitantes durante cerca de trinta anos. Quando criança, aprendi a andar de bicicleta em Melville Koppies West, pegava caranguejos no riacho e recolhia cápsulas de munição deixadas pela polícia de Brixton na colina durante o treinamento para a “guerra civil” que esperavam após a libertação de Mandela. Mais tarde, o banco do mirante em Koppies East tornou-se a sala de reuniões onde construí meu negócio.
Já tinha mais de trinta anos e trabalhava como voluntário quando descobri que o forno de Koppies Central havia sido construído por trabalhadores de ferro sotho-tswana. Eu falo sepedi, uma língua sotho. A prova da atividade industrial do meu próprio povo ficava a poucas centenas de metros de onde cresci, e eu não fazia a menor ideia.
Essa distância entre o lugar e as pessoas a quem sua história pertence foi justamente o que o projeto descrito aqui procurou reduzir.
O forno reaparece na tela do telefone
No Dia do Trabalhador, 1º de maio de 2026, a Universidade de Joanesburgo e o Comitê de Gestão de Melville Koppies inauguraram uma reconstrução em realidade aumentada do forno na própria colina. O visitante aponta o celular para o local, vê o forno se reconstruir na tela e escuta uma explicação de seu funcionamento em setswana, isiZulu, africâner ou inglês. Não é preciso instalar aplicativo.
A reconstrução foi realizada pelo dr. Izak Potgieter, da Unidade de Pesquisa em Metaverso da universidade. Morador de Melville, ele dedicou sua tese de doutorado à reconstrução virtual de Sophiatown.
Acho que ninguém realmente entendia o que eu estava tentando fazer quando propus o projeto.
Convencer o comitê levou algum tempo. Acrescentar uma camada digital a um monumento oficialmente protegido não parecia a escolha mais óbvia para uma associação de voluntários que havia passado seis décadas preservando o objeto real. A conservação foi um dos motivos: a realidade aumentada preserva a forma do forno de um modo que o clima não pode deteriorar.
Mas havia uma ambição maior: alcançar um novo público na colina, inclusive pessoas que não subiriam até o local ou parariam para ler uma placa explicativa, e levar aquela história à quinta revolução industrial.
Em 2026, aumentou o número de visitantes de Koppies. As crianças gostavam das imagens; os mais velhos ouviam a narrativa. Na inauguração de maio, uma senhora experimentou o recurso em setswana e disse:
Moro em Joanesburgo a vida inteira. Nunca soube que nós fazíamos parte dessa história.
Ouvi muitas versões dessa frase em Koppies.
São histórias que nunca receberam a atenção que merecem. Acho que não podemos ser um país bem-sucedido sem fazer isso.
Essa é a avaliação do dr. Potgieter.
Por que levar o forno ao Museum Africa?
Depois da escavação de Mason, um modelo do forno passou a ser exibido no Museum Africa. Alguns dos atuais integrantes do comitê de Koppies trabalharam naquela exposição original.
Parece bastante poético refazer os passos da história.
O segundo motivo é o acesso. A caminhada até o forno, em Koppies Central, leva aproximadamente dez minutos, e nem todos conseguem fazê-la. O museu possui elevadores e rampas.
É importante garantir que nossa história pública tenha acessibilidade universal.
Para o Museum Africa, o projeto era um começo, não uma iniciativa isolada. Zola Mtshiza, representante da instituição, declarou que a modernização do setor de fundição era particularmente empolgante e seria a primeira de muitas iniciativas.
Iron Memory II, 24 de setembro de 2026
A inauguração, intitulada Iron Memory II, ocorreu no Dia do Patrimônio, das 9h30 às 11h30, na galeria pré-colonial do museu. A programação reuniu apresentações da Universidade de Joanesburgo e do museu, um documentário curto sobre a colaboração entre o comitê e o bairro e a experiência de realidade aumentada. Potgieter e Mtshiza cortaram a fita juntos.
O evento fora concebido como uma pequena cerimônia somente para convidados, mas quando as palestras começaram, outras pessoas já entravam pelo fundo. Participou a dra. Gillian Drennan, da Escola de Geociências da Universidade de Witwatersrand, presidente do comitê do Museum Africa.
Jenny Moodley, responsável por relações públicas do Johannesburg City Parks, falou sobre a quantidade de patrimônio histórico preservado em parques e espaços públicos da cidade. Ambas mencionaram a necessidade de fortalecer a cooperação entre instituições como Wits, UJ, a administração dos parques e o museu.
Jenny Grice, nova presidente do Comitê de Gestão de Melville Koppies, lembrou quanto o projeto evoluíra desde a instalação da realidade aumentada na colina: de uma ideia recebida com desconfiança pelo comitê, transformou-se num ponto permanente no centro da cidade, capaz de levar novos visitantes até Koppies.
Ela explicou por que isso importa:
Estamos entusiasmados com a inauguração da nova experiência do forno em realidade aumentada no Museum Africa. Enquanto Joanesburgo celebra 140 anos de seu patrimônio ligado ao ouro, o forno nos lembra que a história da cidade é mais do que ouro. Centenas de anos antes da década de 1880, havia assentamentos agrícolas espalhados pelo território que hoje é Joanesburgo: Melville Koppies, Bruma, Klipriviersberg e outros. Seus moradores eram descendentes de pessoas que migraram de regiões mais ao norte da África, trazendo consigo técnicas de trabalho com metais. Em Melville Koppies, as evidências mostram ainda que, em tempos muito mais antigos, as belas elevações e pastagens foram habitadas por caçadores-coletores san e por seres humanos primitivos, milhares de anos antes. A experiência do forno contribuirá muito para ampliar nossa compreensão do passado de Joanesburgo.
A manhã terminou com um questionário sobre o forno. Os prêmios incluíam ingressos para o festival africano de inovação digital Fak'ugesi e passes para visitar o forno verdadeiro em Koppies: exatamente o percurso que todo o projeto pretende estimular.
O único forno que resistiu
A menção de Grice a Bruma e Klipriviersberg merece atenção. O próprio Mason viria a descobrir outros catorze fornos de ferro pré-históricos em Northcliff, Lonehill, Panorama e Bruma, além de 110 aldeias sotho-tswana na região que hoje abriga a reserva natural de Klipriviersberg. A fundição de ferro era comum nas elevações do planalto que mais tarde se tornaria Joanesburgo.
Fornos como esse existiam por toda parte. Mas este é o único que foi preservado ativamente durante décadas de trabalho árduo. Foi passado de pessoa para pessoa, graças simplesmente à dedicação de indivíduos apaixonados pelo lugar. Isso é Melville.
Assim descreve Potgieter. Nos outros lugares, o avanço das construções destruiu os vestígios. Em Melville Koppies, o comitê, os Amigos de Koppies e sucessivas gerações de voluntários mantiveram o local intacto numa época em que a história oficial quase não reservava espaço para a indústria africana. A declaração de patrimônio de 1963 deu respaldo legal a essa conservação. Mason resumia sua motivação de forma simples:
A África do Sul precisava de uma história melhor.
Como conhecer o forno
O forno em realidade aumentada integra permanentemente a exposição pré-colonial do Museum Africa. O visitante pode usar a rampa acima da entrada principal para chegar à galeria e escanear os códigos QR com o telefone. O museu fica na Lilian Ngoyi Street, nº 121, em Newtown, com estacionamento seguro em Newtown Junction.
O forno original está em Koppies Central e pode ser visitado nas caminhadas guiadas pelos Amigos de Melville Koppies. A realidade aumentada também funciona no próprio sítio. À época do relato, a Reserva Natural de Melville Koppies abria aos domingos, das 8h às 11h30, com estacionamento em Marks Park, na Judith Road, em frente à entrada de Koppies Central.
O desejo de Potgieter é que um turista conheça o forno em Newtown, descubra que o original fica em Melville, decida visitá-lo e permaneça ali para almoçar.
Esta é uma joia muito especial da coroa de Melville. Talvez não fosse polida havia algum tempo, mas agora estamos dando brilho a ela.
Sobre o autor do relato: Aubrey Moloto cresceu em Melville e é voluntário dos Amigos de Melville Koppies. Fundou a Snaps On Seventh, agência de mídia digital e conteúdo sediada em Melville, e edita o boletim semanal Melville Untold, dedicado ao bairro. Também organiza o Melville Art Mile, realizado na primeira quinta-feira de cada mês.