ONIXEA
Dossiê · engenharia e memória industrial

As ferrovias do fim da guerra à União (1902–1910)

Reconstrução ferroviária entre 1902 e 1910, a ponte Gouritz, a NCCR e a ligação entre o Cabo e a África Central.

Na edição anterior da série sobre a história das ferrovias da África Austral, Peter Ball examinou o papel das ferrovias durante a Guerra Sul-Africana. Neste texto, ele aborda a reconstrução do pós-guerra, a conclusão de diversas linhas e a contribuição das ferrovias para a união política da África do Sul.

Quando a Guerra dos Bôeres começou, as ferrovias da África do Sul já haviam revolucionado os transportes, permitindo ligações rápidas entre o interior e os portos. A guerra praticamente paralisou toda nova construção ferroviária, pois tanto trabalhadores quanto materiais foram requisitados para o esforço militar enquanto o Exército britânico avançava para o norte, a fim de ocupar as repúblicas bôeres. Em retrospecto, teria sido muito melhor para todos se as negociações de paz de Middelburg, entre Louis Botha e lorde Kitchener, em 28 de fevereiro de 1901, tivessem sido bem-sucedidas e encerrado a guerra. Muitas vidas teriam sido poupadas e novos danos às fazendas do Highveld teriam sido evitados. A oportunidade de acordo foi perdida e a guerra arrastou-se por mais quinze meses. Finalmente, em 31 de maio de 1902, os delegados bôeres reunidos em Vereeniging votaram a favor da paz proposta por Kitchener, por 54 votos a seis. Era, em grande medida, um caso de sobreviver para lutar outro dia, mas essa é outra história.

O objetivo aqui é relatar o período intermediário entre o fim da guerra e a Lei da União, no que diz respeito às ferrovias existentes antes da criação da South African Railways (SAR). Essa criação coincidiu com a união das quatro colônias — Cabo, Natal, Rio Orange e Transvaal — em 31 de maio de 1910, exatamente oito anos depois do término da guerra.

A guerra devastou grandes áreas das antigas repúblicas bôeres e, em menor grau, partes do Cabo e de Natal. As ferrovias tiveram papel decisivo para iniciar a reconstrução das colônias. Os primeiros passos foram reparar os danos da guerra e restabelecer o funcionamento regular das linhas. Na Colônia do Rio Orange e no Transvaal, as Imperial Military Railways deram lugar a uma administração civil denominada Central South African Railways (CSAR). Quando as duas colônias alcançaram o autogoverno, em 1908, já haviam sido firmados, sob supervisão britânica, uma união aduaneira e um acordo ferroviário com o Cabo e Natal. Tratava-se do precursor da futura unificação política, um sonho acalentado desde a época de Sir Bartle Frere, em 1877.

A expansão da rede ferroviária voltou a avançar, incluindo a conclusão das linhas cuja construção fora interrompida pela guerra. Uma merece destaque: construída por iniciativa privada para explorar o potencial comercial da região a leste da Cidade do Cabo, ficou conhecida como New Cape Central Railway (NCCR). Antes da guerra, já chegara a Swellendam, em 12 de abril de 1899, passando por Worcester, Robertson e Ashton, e recebera autorização para avançar mais para leste, até Riversdale. George Pauling ganhou o contrato. Embora os trabalhos tivessem começado em 1899, logo foram paralisados, pois os materiais ferroviários foram requisitados para manter as linhas do norte em condições de uso durante o avanço britânico. Havia outro perigo para a NCCR: a Cape Government Railways (CGR) estava construindo sua própria linha para Swellendam via Sir Lowry’s Pass e Caledon, em concorrência direta. Essa linha, contudo, nunca foi concluída e terminou em Protem — do latim pro tempore, “por enquanto” —, cerca de 23 milhas (37 km) antes de Swellendam. A NCCR chegou a Riversdale em 19 de fevereiro de 1903, depois de enchentes em 1902 terem levado trechos dos trilhos e atrasado a conclusão. Mossel Bay era a meta final da NCCR, e a ligação com a linha da CGR que descia de George foi concluída em Voorbaai, em 25 de julho de 1907.

A principal obra de engenharia civil dessa linha, curiosamente, antecedeu a ferrovia em quinze anos. Tratava-se da ponte rodoviária sobre o desfiladeiro do rio Gouritz, aberta ao tráfego de carroças em março de 1892. A ponte era formada por treliças de aço estrutural, com vão central de 420 pés e vãos laterais de 140 pés, elevando-se 200 pés (61 metros) acima do leito do rio. Foi fabricada na Inglaterra pela firma Andrew Handyside, de Derby, e transportada por navio ao Cabo. O projeto era de Sir Benjamin Baker, célebre engenheiro de pontes conhecido pela Forth Railway Bridge, na Escócia, inaugurada em 1890. Um detalhe interessante é que a ponte serviu tanto ao tráfego rodoviário quanto ao ferroviário até 1931, quando uma nova ponte ferroviária foi construída para comportar trens mais modernos e pesados. Ela continuou servindo como ponte rodoviária até 1978, quando foi substituída por uma estrutura moderna de concreto. A ponte antiga permanece entre as duas construções posteriores e é utilizada como plataforma para saltos de bungee jumping.

Seguindo para o norte, rumo ao Transvaal, a linha de ligação direta entre Klerksdorp (CSAR) e Fourteen Streams (CGR), junto ao rio Vaal, foi concluída em 4 de abril de 1906. Ela ofereceu uma rota direta entre Rand e Cidade do Cabo, passando por Kimberley.

Mais ao norte ainda, a ferrovia já havia chegado a Bulawayo, na Rodésia do Sul (hoje Zimbábue), no fim de 1897, pouco depois da revolta dos matabeles. Bulawayo tornou-se entroncamento da linha para leste, que chegou a Salisbury em 1º de junho de 1902, e da linha para norte, em direção aos campos de carvão de Wankie, alcançados em 1º de dezembro de 1903. O trecho entre Wankie e as Cataratas Vitória foi aberto ao tráfego em 20 de junho de 1904. A ponte das Cataratas Vitória, sobre o desfiladeiro do Zambeze, foi concluída e aberta em 12 de setembro de 1905. Cecil Rhodes havia determinado o lugar onde ela deveria ser construída para que os passageiros dos trens que a atravessassem sentissem no rosto a névoa das quedas-d’água. Rhodes, infelizmente, não viveu para ver seu desejo realizado: morreu em 26 de março de 1902 e foi sepultado em World’s View, nas colinas Matopos, perto de Bulawayo. A ponte permitiria abrir caminho para a Rodésia do Norte (atual Zâmbia). A ferrovia chegou a Broken Hill (hoje Kabwe) em 1º de setembro de 1906 e, depois, a Ndola, na região do Cinturão do Cobre, e à fronteira com o Congo, em 19 de junho de 1909. O sonho de Rhodes de uma ferrovia entre o Cabo e o Cairo terminou ali, na mata da África Central.

Uma série de documentários da BBC chamada Great Railway Journeys of the World foi exibida no começo da década de 1980. Um dos episódios, Zambesi Express, mostrava o narrador Michael Wood numa viagem, com muitas paradas, da Cidade do Cabo às Cataratas Vitória, passando por Joanesburgo. A viagem ocorreu no fim de 1979, quando Christopher Soames chegara à Rodésia para se tornar o último governador colonial, suspender as sanções e abrir caminho para eleições multirraciais. O próprio documentário passou a fazer parte da história.

Em 31 de maio de 1910, a tão desejada união política da África do Sul tornou-se realidade. As ferrovias contribuíram enormemente para preparar o caminho, transformando, em apenas cinquenta anos, não só a paisagem, mas também o tecido político e social do país. A partir de então, avançariam juntas como uma única entidade, conhecida como South African Railways, ou simplesmente SAR.