No relato a seguir, Graham Ross e Tony Murray celebram o trabalho de Richard Thomas Hall, responsável pela ferrovia que ligava Okiep a Port Nolloth. O texto apareceu originalmente em Past Masters: Pioneer Civil Engineers who contributed to the Growth and Wealth of South Africa, obra dedicada a engenheiros pioneiros.
O minério das minas de cobre de Namaqualand era enviado à Cornualha, na Inglaterra, para processamento. Talvez por isso tenha sido natural que a Cape Copper Company escolhesse um homem daquela região para examinar seus problemas de transporte.
Richard Thomas Hall, que concebeu, projetou e construiu a ferrovia de bitola estreita através do terreno hostil entre Port Nolloth e Okiep, nasceu em Falmouth, na Cornualha, em 1823. Sua experiência como superintendente da ferrovia de bitola estreita Redruth–Chacewater e na conversão dessa linha da tração animal para a tração a vapor foi decisiva para enfrentar os problemas logísticos das minas de cobre de Namaqualand.
O primeiro projeto foi recusado
Hall chegou a Namaqualand em 1865, contou com a ajuda do topógrafo Patrick Fletcher e realizou uma investigação extremamente cuidadosa das alternativas disponíveis para levar o cobre até o litoral.
Ele não excluiu o transporte rodoviário de suas análises, mas deve ter percebido rapidamente suas dificuldades, especialmente a escassez sazonal de água e forragem para os animais de tração. Isso limitava o período de transporte a poucos meses por ano. Durante a estação em que a circulação ficava interrompida, o minério se acumulava nos depósitos e a receita cessava, situação evidentemente prejudicial às empresas de cobre.
Seu relatório recomendou, portanto, uma linha de bonde ou ferrovia leve, de bitola estreita de dois pés e seis polegadas, entre Okiep e Port Nolloth. O governo colonial não apoiou a proposta. Em vez disso, construiu a estrada Messelpad, projetada por Fletcher, em direção a Hondeklip Bay.
Infelizmente, a Cape Copper Company já estava comprometida com o financiamento de melhorias nessa estrada. Assim, embora a proposta de Hall para uma ferrovia privada tivesse sido aceita em princípio, não poderia ser executada naquele momento.
O terreno de Namaqualand impôs enormes obstáculos
Nos anos seguintes, o transporte do minério por carroças piorou ainda mais. A companhia convocou Hall de volta para fazer os levantamentos, projetar e construir a linha de Port Nolloth que ele recomendara três anos antes.
Era uma tarefa formidável. O primeiro trecho percorria 70 quilômetros pelo terreno arenoso da faixa costeira até o sopé da escarpa. Depois, no passo de Anenous, a ferrovia subia 400 metros até o planalto em apenas 12 quilômetros. O último segmento atravessava mais 55 quilômetros de terreno pedregoso até Okiep.
Hall não enfrentava somente as condições climáticas, geológicas e topográficas desfavoráveis. Também faltavam artesãos e trabalhadores especializados, e havia dificuldades constantes para receber pontualmente equipamentos e suprimentos vindos do exterior. É importante lembrar que os construtores das estradas governamentais podiam recorrer ao trabalho de condenados, recurso que Hall não possuía.
Apesar de tudo, conseguiu construir uma obra singular na história do país, que impediu o fechamento das minas de cobre. A ferrovia completa foi oficialmente inaugurada em 1º de janeiro de 1876 e permaneceu em serviço até 1942.
As locomotivas consumiam água demais
O primeiro trecho começou a operar com mulas. Ao observar como os trilhos suportavam o transporte de materiais, Hall recomendou uma experiência com uma locomotiva a vapor leve. Duas foram importadas, mas se mostraram pouco confiáveis — sobretudo porque consumiam quantidades enormes de água.
A companhia voltou a utilizar mulas e, durante algum tempo, manteve um estábulo gigantesco, com cerca de 260 animais. Cada trem precisava de aproximadamente 60 mulas para ser puxado. A exceção era a descida do passo Anenous, onde os vagões avançavam pela gravidade, sob os olhos atentos do freísta.
Finalmente, não sem algumas tentativas malsucedidas, as locomotivas a vapor retornaram em 1890 e continuaram servindo até a desativação da linha. O transporte rodoviário motorizado se tornou mais eficiente e aos poucos assumiu o serviço, inicialmente para Port Nolloth e depois para o terminal ferroviário de Bitterfontein, da South African Railways.
O impacto econômico da ferrovia
Os benefícios foram espetaculares. Em 1870, as minas produziram 12 mil toneladas de minério, mas somente 7.300 toneladas puderam ser transportadas até o porto. Em 1872, quando apenas o trecho costeiro da ferrovia estava em funcionamento, as exportações já alcançavam 13.240 toneladas. Não é difícil entender por que a companhia decidiu prolongar os trilhos.
Os trabalhos posteriores de Richard Hall
Após o projeto de Namaqualand, William Brounger, da Cape Railways, encarregou Hall de encontrar uma passagem ferroviária de Worcester pelo Langeberg até o Karoo. A partir dali, determinar o traçado em direção aos campos diamantíferos seria relativamente simples. A melhor opção identificada por Hall passava por Montagu e Ladismith, antes de retornar na direção de Touws River.
Ele passou cerca de seis meses no trabalho e recebeu a modesta quantia de cem libras. Felizmente para a eficiência da futura rede ferroviária sul-africana, Wells Hood, principal engenheiro de traçado de Brounger, encontrou uma passagem muito mais direta pelo vale do rio Hex.
Naquele período, Hall também era ouvido em círculos influentes. Foi um dos profissionais que aconselharam a comissão especial colonial a adotar a bitola de três pés e seis polegadas (1.067 milímetros), que se tornaria o padrão ferroviário em boa parte da África ao sul do Saara.
Mais tarde, fez um reconhecimento rápido de Pretória até Lourenço Marques a pedido do presidente Burgers, da República do Transvaal. Depois tornou-se gerente de tráfego da Cape Railways em Port Elizabeth, cargo que manteve até se aposentar aos sessenta anos.
Passou então a administrar a mina Thomas, perto de Avoca. Em 1889, o presidente Brand o nomeou para dirigir as ferrovias do Estado Livre, mas Hall morreu em Pretória, aos 66 anos, quando viajava para assumir a função.
Como vários de seus contemporâneos, Richard Thomas Hall foi um engenheiro competente e ousado, cujas realizações merecem mais reconhecimento do que receberam nos registros profissionais de seu país.
Sobre os autores do relato
Graham Ross gostava de se chamar de padmaker, construtor de estradas. No início da carreira, trabalhou em condições duras ao lado de equipes que abriam caminhos pelas áreas secas e poeirentas da Província do Cabo. Mais tarde, tornou-se um dos primeiros engenheiros de geometria viária qualificados do país e passou a trabalhar num escritório da Cidade do Cabo, equipado com prancheta de desenho e máquina de calcular.
Após a aposentadoria, começou a reunir um banco de dados sobre a história das estradas provinciais do Cabo, sobretudo suas passagens de montanha, pesquisa que lhe renderia um doutorado pela Universidade de Stellenbosch. O trabalho envolveu muitas viagens, entrevistas, fotografias e pesquisas. Na mesma época, a divisão de transportes da Instituição Sul-Africana de Engenheiros Civis (SAICE) pediu-lhe uma série de artigos sobre as passagens de montanha para a revista da instituição.
Para o centenário da SAICE, em 2003, Ross foi convencido a ampliar os artigos num livro para o público geral. Preparou-o rapidamente, com seu cuidado habitual, e The Romance of the Cape Mountain Passes chegou às livrarias pouco depois.
Tony Murray é engenheiro civil aposentado e pesquisador de história da engenharia. Trabalhou durante a maior parte da carreira no Conselho Divisional do Cabo e nos órgãos que o sucederam, chegando a dirigir o departamento de engenharia do Conselho Metropolitano do Cabo.
Escreveu extensamente sobre a profissão e foi o primeiro presidente do painel de História e Patrimônio da SAICE. Entre suas realizações, convenceu a Sociedade Americana de Engenheiros Civis a reconhecer a barragem Woodhead, na Table Mountain, e o farol do Cabo Agulhas como marcos internacionais do patrimônio da engenharia.
Depois de servir por dez anos na diretoria executiva da SAICE, recebeu em 2010 a rara distinção de membro honorário. Produziu manuais, palestras e apresentações sobre a relação entre vereadores municipais e engenheiros, ministrando cursos por todo o país. Também foi professor popular na Escola de Verão da Universidade da Cidade do Cabo, onde apresentou cinco séries de palestras sobre engenheiros e suas realizações.
Foi presidente do Owl Club em 2011. Seu livro Ninham Shand – the Man, the Practice, sobre o conhecido engenheiro consultor e a empresa fundada por ele, foi publicado em 2010. Em 2015, lançou Megastructures and Masterminds, destinado ao público geral, e a coletânea Past Masters, com seus artigos sobre engenheiros sul-africanos do século XIX, também ficou disponível na livraria da SAICE.